Ser cinturão negro do Yoga

Este fim-de-semana tive uma conversa bem interessante com uma cliente querida que veio fazer Thai Massagem comigo e entre várias coisas falámos sobre a nossa prática de Yoga e sobre esta ideia tão enraizada que fazer muitas posturas e difíceis é que torna uma prática completa, e se não for para praticar 1h30 nem vale a pena mexer uma palha.

Ela descreveu alguns sentimentos

Que eu tive no passado relativamente à minha própria prática, aos motivos porque esticava o tapete e à quase necessidade louca que eu tinha de perseguir mais e mais posturas, de preferência que fossem acrobáticas (ou bonitas para a foto), o que no meu caso significava essencialmente duas coisas: a ideia que para fazer parte da “crew” do Yoga tens que as fazer e a necessidade de ser sempre a melhor. Ego essa palavra marota que andou de mãos dadas comigo durante muito tempo na minha prática, e que me dizia que eu não podia praticar de manhã porque a essa hora o meu corpo estava mais preso e por isso a melhor altura para “rockar” no tapete era ao final do dia. Ou o ego que me fazia ansiar de uma forma quase insana pela próxima postura que o meu professor me ia atribuir e quando ela chegava, mais do que a procurar entender, eu ia a correr ver qual seria a próxima a vir.

O meu caminho no Yoga não foi imaculado, e durante muito tempo eu esqueci-me por completo da razão que me levou em primeiro lugar ao tapete há 7 anos atrás  – pranayamas e controlo da minha síndrome do pânico numa altura em que estava a largar a medicação – e nessa época em que eu achava o Yoga uma seca, aquilo que me fez ficar foram os benefícios quase imeadiatos que eu senti na minha recuperação.

Então o que mudou aqui pelo meio?

A meu ver foi este descaracterizar que tem vindo a acontecer ao Yoga nos últimos anos, esta coisa simplista e quase ofensiva que dá a ideia que temos de ser cinturões negros do Yoga, onde os iniciados e os avançados competem à sua maneira por um spotlight de likes, comentários e aplausos sobre o quanto ficam bem no tapete – de preferência se este for de uma marca fancy.

E o que é isto de se ser avançado no Yoga? Que coisa é esta que diz que alguém que coloca um pé atrás da cabeça é avançada? O que diz isso da verdadeira pessoa que ela é lá fora? Será essa pessoa, uma melhor pessoa porque faz um ásana avançado? Viverá essa pessoa com verdadeiro sentido de desapego? Porque no fundo, aquilo que mais tenho aprendido nos últimos tempos, é que todo este apego que criamos com as posturas faz com que a nossa prática nunca se torne verdadeiramente profunda, porque estamos sempre ali naquela superfície onde o que nos interessa é a próxima postura sem verdadeiramente entrar nelas.

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Mas quis o destino que o meu ego fosse testado

De uma forma algo violenta mas crucial para a forma como a minha relação com o tapete mudou e assim em Outubro de 2018 eu magoei-me a sério no Crossfit, uma lesão na cervical que poderia ter corrido muito mal, o que fez com que estivesse sem treinar durante meses e tornou a minha prática de Yoga quase geriátrica – mesmo sendo Ashtanga esse bicho papão que as pessoas acham que só os magrinhos, atléticos e flexíveis é que podem praticar. E o interessante é que esta lesão tocou no meu ponto mais sensível – o ego – e aos poucos ajudou-me a relembrar porque é que há 7 anos segui o conselho médico de começar a praticar Yoga e que foi única e exclusivamente para poder regressar a mim mesma. À minha casa, dentro de mim. E foi aqui com este reconhecer que não preciso de ser cinturão negro de coisa nenhuma que senti que a minha prática mudou por completo.

E como é que percebi isto?

Porque há relativamente pouco tempo o meu querido professor deu-me um novo ásana sem que eu estivesse à espera e quando o recebi não senti que ganhei uma medalha nem fui a correr ver qual seria o próximo, muito pelo contrário, aceitei-a como sendo parte desta caminhada que eu decidi começar há 7 anos e simplesmente desfrutei do incrível prazer que é ter a capacidade de me escolher todos os dias.

Porque no fundo é só sobre isto que o Yoga se trata, de nos mostrar que apesar de acharmos que precisamos de tudo isto, nós já temos o necessário e é na nobre arte do desapego e do estar presente, que reside a nossa verdadeira felicidade individual.

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