Viver com ansiedade ou o que há de errado connosco

Durante muitos anos questionei-me sobre o que havia de errado comigo. Porquê a mim? Era sempre esta a questão que eu me colocava, quase como se isto fosse uma maldição que me tinha sido imposta por uma qualquer magia negra. A verdade é que eu não pedi nada disto, não pedi por nenhum dos ataques que tive –  e ainda tenho às vezes – não pedi por nenhuma das muitas idas ao hospital em que achava que estava às portas da morte com um problema no coração, e não pedi seguramente por um diagnóstico que me diz que apesar de controlado tenho de viver com esta questão para sempre. Não pedi mas recebi tudo isto e durante muito tempo revoltei-me comigo própria e achei que havia algo de errado comigo. Quase como se estivesse estragada.

E podia dizer-vos que hoje em dia estes pensamentos já não existem.

Que entendo por completo e aceito a minha ansiedade e que ao ter aprendido a controlá-la para não a deixar escalar para um ataque de pânico me sinto muito mais confortável. Poderia dizer-vos que deixei de ter comprimidos SOS na carteira. Poderia dizer-vos tudo isso, mas prefiro dizer-vos a verdade e a verdade é que eu ainda tenho alturas em que detesto esta condição, especialmente quando sei a teoria de como controlar um ataque e quando chega a altura não o consigo fazer.

A verdade é que viver com ansiedade, mesmo estando controlada é uma espécie de roleta russa e é exactamente esta parte que ainda me causa desconforto. Porque eu sei muitos truques, porque já fiz muita psicoterapia na minha vida (e melhorei muito graças a ela) e já li todos os textos motivacionais que existem para acreditar que este bicho papão vai embora, e na maior parte do tempo, ela está super controlada e eu esqueço-me dela. Mas às vezes, ela aparece juntamente com os ataques de pânico e é exactamente aqui, que todos os truques se evaporam da minha mente e às vezes muito de vez em quando ainda recorro à medicação para me ajudar.

Sugestão
Psicoterapia - Não existe vergonha em pedir ajuda

Ora durante muito tempo

Eu achei que era errado procurar a via mais “fácil” que era o comprimido e tinha alguma vergonha em falar disso, mas a verdade é que dei por mim a pensar nesta questão mais a fundo e percebi que não existe nada de fácil ou simples num ataque de pânico e que passar por todo este processo mesmo quando já sabes o que tens e como controlar não é algo que se encare de cabeça leve. E depois recebi uma mensagem de uma mulher, que comentou exactamente isto comigo, que me disse que sofria desta condição, que estava a ser acompanhada e estava realmente melhor e que apesar de ter aprendido muitas técnicas, às vezes quando sentia que não conseguia controlar tomava um comprimido às escondidas porque tinha vergonha de assumir que o fazia.

E isto provocou-me um aperto no coração, e fez-me sentir automaticamente uma grande simpatia por esta mulher. Porque eu entendo que numa altura onde se fala tanto de vida saudável, de seguir a via mais natural, de acreditarmos no nosso potencial, é complicado admitir que há alturas em que o nosso melhor amigo é uma coisa pequenina carregada de quimicos. É complicado admitir, porque automaticamente sentimos que a brigada do saudável nos vai cair em cima, com histórias lindas de como a cura vem pelo amor ao nosso corpo, e pela alimentação e o acreditar muito.

Fiquei a pensar nisto sabem, na mensagem que andamos a passar por esta internet fora e no quanto nos tornámos peritos em criar soluções mágicas para tudo.

E é por isso que muitas mulheres têm vergonha de admitir que tomam a pilula ou que precisam de uma ajuda quimica para controlar a ansiedade. Deseja-se tanto espalhar o conceito de viver totalmente ao natural que estamos a deixar de ouvir as pessoas, estamos a colocá-las todas no mesmo saco, com as mesmas sugestões de cura, quase como se fossem uma check list.

E sim é óptimo ler mensagens bonitas de força, é óptimo acreditar que tudo vai correr bem, é óptimo ler dicas motivacionais e um cem número de técnicas que prometem ajudar-te a controlar a ansiedade mas é importante que se explique que somos todos únicos e que a minha forma de controlar um ataque pode não ser a tua e mesmo que as minhas sugestões funcionem, há alturas em que controlar um ataque de pânico se torna uma tarefa absolutamente inglória. E sim, apesar da meditação, do yoga e das respirações serem incríveis, às vezes é exactamente aquele comprimido SOS que faz com que as coisas não descambem. E não há nada de errado nisso, não és mais fraca porque não escolhes a via natural. Não és mais fraca porque escolhes a “via mais fácil”.

E não há absolutamente nada de errado contigo por teres alturas em que consegues controlar e outras não. És simplesmente humana, tal como eu, que cuido de mim, que me alimento bem, que treino, faço yoga e que apesar de procurar dar ao meu corpo o melhor que posso, às vezes também eu, recorro a um comprimido para me ajudar.

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