Eu não estava a pedi-las

ter coragem para pedir ajuda

Há uns anos atrás, eu estava a tirar um curso de inglês num instituto enquanto trabalhava. Normalmente ia ao curso mais ao final do dia por volta das 19h, mas naquele dia eu estava de folga durante a semana e aproveitei para ir à tarde. Eram 15h.

O instituto ficava a uns 15 minutos a pé da minha casa, e eu ia sempre por um jardim, com árvores altas que ficava situado no meio de alguns prédios. Aquele jardim sempre me foi familiar e nunca antes me tinha causado algum tipo de receio, afinal de contas eu cresci a passar por aquele jardim vezes sem conta e foi num dos bancos daquele parque que eu dei o meu primeiro beijo a sério.

Era verão, eu estava de calças de ganga e t-shirt, e nesta altura com 21 anos eu ainda vomitava e tinha uma péssima relação com o meu corpo, por isso quanto menos desse nas vistas a nível de roupa melhor. Porque aos meus olhos, nada em mim era sensual, bonito ou chamativo ao sexo oposto.

A aula acabou por volta das 16.30, voltei para casa e como sempre fiz exactamente o mesmo caminho, mas naquele dia, no meu regresso um homem aproximou-se de mim e enquanto eu andava perguntou-me as horas. Não vos consigo explicar, mas a forma como a voz dele soou, arrepiou-me e por isso não o olhei nos olhos, continuei a andar com ele quase ao meu lado. Ele voltou a perguntar-me as horas e quando baixei a cabeça para ver o meu relógio percebi que aquele homem estava ao meu lado a masturbar-se e numa questão de segundos agarrou-me com as mãos imundas e começou a dizer-me as coisas mais obscenas do mundo enquanto se encostava a mim.

Foram segundos desde que eu congelei de medo até que comecei a gritar e a empurrá-lo para que me largasse.

Nesse preciso momento vi uma pessoa ao longe a descer o jardim, continuei a gritar muito alto e sem saber como ganhei uma força completamente animalesca, consegui soltar-me e corri. Corri muito. Corri como se a minha vida dependesse disso. Corri sem olhar para trás, cheguei a casa aos gritos, completamente a tremer e a sentir-me a pessoa mais imunda de sempre. Nesse momento a minha mãe agarrou em mim e fomos apresentar queixa à esquadra. Lembro-me de lá chegar e estar um grupo de policias a sair do turno e assim que ouviram a história saíram a correr para tentar encontrá-lo. Diziam esses polícias que tinham filhas, filhas essas que estudavam ali perto daquele jardim onde haviam várias escolas. Filhas tal como eu, de uma mãe que se sentiu impotente ao perceber o que tinha acontecido em plena luz do dia.

Apresentei queixa, mas por alguma razão o meu medo provocou-me um blackout e eu não consegui descrever a cara dele. Até hoje não o consigo. Descrevi a roupa, a altura, a nacionalidade, o cabelo encaracolado e nada mais. Na minha cabeça existe até hoje uma branca com a cara dele. Foram horas na esquadra até que fui finalmente para casa, meti-me na banheira e estive mais de 1 hora debaixo do chuveiro sem me mexer, para depois começar a esfregar com tanta força que quase me magoava a mim própria.

Não vos consigo explicar o nojo que eu sentia naquele momento.

Por mais que me lavasse, eu sentia as mãos, o cheiro, a voz, as palavras obscenas completamente agarradas a mim. Por mais que eu esfregasse, nada fazia com que aquilo desaparece na minha pele e da minha alma. E assim estive durante muito tempo.

Fui chamada uma segunda vez para saberem se me lembrava de mais alguma coisa e me mostrarem fotografias, mas eu não conseguia dizer mais nada, e por isso passado um tempo fui informada que o caso tinha sido arquivado por falta de material para avançar. Mais tarde, ele voltou a aparecer à frente do carro da minha vizinha com ela lá dentro e a outras mulheres e acabaram por o apanhar.

E porque é que vos conto isto?

Porque regressei da India a semana passada e li uma notícia de uma rapariga que foi encontrada sem sentidos e nua numa queima das fitas e os comentários foram das coisas mais assustadoras que já li. “Bebem sem noção e depois queixam-se”, “Usam roupas provocantes e depois querem o quê”, “A beber daquela forma estava mesmo a pedi-las” e tantos outros que juntos mostram o quanto o ser humano consegue ser a coisa mais nojenta à face da terra.

E isto assusta-me. Assusta-me que se aponte o dedo tão facilmente , assusta-me que para algumas (muitas pessoas) beber, usar um decote, sair à noite, sair de dia, usar calções,  saltos, batom ou outra merda qualquer seja estar a pedir para se ser abusada. Assusta-me acima de tudo pensar que tipo de educação darão estas pessoas aos seus filhos (ou filhas), assusta-me que nos esqueçamos que pessoas doentes existem em todo o lado e que um dia podemos simplesmente estar a passar num parque em plena luz do dia e alguém abusar de nós.

O que me assusta é que se criem esteriótipos tão facilmente.

À menina bem comportada não lhe acontece nada, mas a má comportada arrisca-se a ser abusada. A menina bem comportada é recatada e veste-se de forma simples. A má comportada é uma devassa do pior, embebeda-se e por isso se até hoje não lhe aconteceu nada tem muita sorte. São estes os esteriótipos que se criam, só que eu, naquele dia era uma simples miúda, vestida de calças de ganga e t-shirt, com um dossier na mão e uma péssima auto estima que me fazia querer passar despercebida sempre e isso não invalidou que alguém achasse que tinha o direito de me fazer o que fez. E não, eu não estava a pedi-las, tal como nenhuma mulher que saia para se divertir, que beba uns copos ou use a roupa que bem entender está.

A única razão porque resolvi partilhar isto é para que nunca se esqueçam que isto, este tipo de abusos acontece, e pode acontecer a qualquer um quando menos se espera, e é importante que quem aponte o dedo nunca se esqueça que um dia podem ser vocês daquele lado, seja como vitimas seja como familiares e garanto-vos que nenhum dos lados é bom. Porque não, isto não é coisa de meninas safadas que estão mesmo a jeito a pedi-las. Não é coisa só de quem sai à noite ou de quem apanha uma bebedeira. É coisa de pessoas doentes, que existem em qualquer lado, seja dia ou de noite, seja numa discoteca ou num raio de um parque.

 

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4 Comments

  1. Responder

    Tatiana Albino

    Maio 13, 2019

    isto.
    “Assusta-me acima de tudo pensar que tipo de educação darão estas pessoas aos seus filhos (ou filhas), assusta-me que nos esqueçamos que pessoas doentes existem em todo o lado e que um dia podemos simplesmente estar a passar num parque em plena luz do dia e alguém abusar de nós.”

    É tão isto. Eu também já tive três “encontros” desses, felizmente não tão perto. A repugna não se explica. Outra das situações que me aconteceu foi num transporte público – vestida até aos olhos (foi na Suécia) – em que um homem decidiu que era fixe pôr-me a mão na perna. Levantei-me tão rápido que até o assustei. Durante os dias seguintes mudei a minha rotina. Quando contei ao Oscar só me lembro de repetir que me senti nojenta. E não percebo porquê. Eu não estava “a pedi-las”. Ele é que foi abusador. Ele é que foi o nojento. E no entanto, fui eu que me senti minúscula e suja e com medo.

    Injusto. Em toda a linha. E voltando ao ponto principal: que pais e mães são esses que dizem “estava a pedi-las”? É preciso que se eduquem bons humanos…. e não é assim.

    • Responder

      vânia duarte

      Maio 28, 2019

      É das coisas que mais penso, como serão os humanos de amanhã se cada vez mais se incita ao ódio e à fácil condenação e apontar de dedo 🙁

  2. Responder

    Sofia Costa Lima

    Maio 14, 2019

    Vânia!!! Eu continuo sem muitas palavras, mas tenho de te agradecer por, mais uma vez, contares a tua história e mostrares o quanto és incrível!

    Não sei quando é que toda a gente vai começar a compreender isto, mas é algo que tem de mudar.

    • Responder

      vânia duarte

      Maio 28, 2019

      Oh querida Sofia obrigada de coração pelas tuas palavras, espero que a minha partilha ajude a abrir mais mentes. beijinho grande

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