O que é isto da comida boa e má?

comida boa e comida má refeição do lixo

Há muitos, muitos anos atrás, alguém me disse que a banana engordava e a partir desse momento a banana desapareceu da minha vida. Foram exactamente 10 anos sem comer banana até voltar a tocar numa em 2015. E esta obsessão em torno das calorias da comida era uma das crenças que eu tinha, a outra era que para emagrecer e ser saudável, tinha de fazer muitos sacrifícios, e deixar completamente de parte a comida má (como eu lhe chamava)

E foi com esta crença da comida má que eu vivi grande parte da minha vida.

Que a comida má me fazia mal, a comida má me engordava, a comida má só servia para me afastar o mais possível do meu objectivo. Por isso, em 2016 quando fiz a super dieta que me mandou para o hospital, a “comida má” só existia uma vez por semana numa refeição à qual eu chamava de lixo. De resto a minha vida era pautada por comida boa – pensava eu.

Uma das refeições desta “comida boa” era omelete de claras com canela, que era uma coisa que eu odiava mas comia porque estava no plano. Pelo contrário, as panquecas de aveia que eu adorava não estavam, porque afinal a aveia que há uns anos era um alimento incrível agora era o demónio em forma de cereal e vinha para me destruir. E assim, os meus dias começavam com um pequeno-almoço que eu odiava, com fruta contada ao grama e com porções gigantes de peixe e bróculos. Enfim uma verdadeira felicidade alimentar.

Já sabemos como tudo acabou não é? Eu comecei a sofrer de grandes compulsões, apanhei uma bonita anemia, fui parar ao hospital e puff percebi aos 30 anos que era uma perfeita idiota e que esta minha idiotice, era não só, alimentada pela pessoa que me estava a seguir mas também, por todas as inspirações que eu seguia nas redes sociais e que diariamente falavam de comida lixo, de comida boa e de comida má. Sim, essas pessoas super influenciadoras, que todos os dias alimentavam esta fobia alimentar e que hoje em dia continuam a fazê-lo ao usarem as palavras bom e mau para definir comida.

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E isto é uma coisa que nos dias de hoje eu não entendo.

Porque comida boa para mim é comida que me faz feliz, é comida que me preenche, é comida que me deixa a brilhar, e lamento se vos desiludo mas eu tanto brilho com um batido verde como brilho com uma pizza. Eu sinto-me tão feliz a comer uma salada como me sinto feliz a comer bolachas. E isto acontece porque algo com que sempre vivi desapareceu e que se chama culpa, um dos males que mais afecta as pessoas nos dias de hoje.

Nunca se falou tanto de alimentação saudável como hoje, nunca se teve tanta informação como agora e aquilo que eu sinto é que as pessoas estão cada vez mais confusas com o que devem ou não comer, com o que podem ou não comer, com o que é bom ou mau comer. E não há mal em ter dúvidas, mas demonizar alimentos é provavelmente dos maiores crimes que se comete hoje em dia. Porque é exactamente aqui que se criam fobias alimentares, e nunca se poderá alcançar um equilíbrio como tanta gente deseja, quando se tem medo de comer o que quer que seja.

Ora há uns bons tempos, publiquei uma fotografia

De umas torradas com manteiga e uma pessoa disse-me por mensagem que não estava à espera que eu comesse pão normal com manteiga. E se ao início eu não percebi a questão, depois entendi que de facto o pão é provavelmente dos alimentos mais demonizados da nossa sociedade – à excepção de alguns, que são incríveis sim mas custam uma pequena fortuna. Ora eu não como pão todos os dias porque gosto de variar a minha alimentação, mas para mim não há absolutamente nada de errado em comer um pão normal entendem?

É pão, não me vai matar, não me vai fazer cair um braço e muito menos me vai deixar gorda, é um alimento que eu escolhi naquela altura para nutrir o meu corpo e se essa escolha é feita em consciência e com verdadeira vontade porque raio é que me vai fazer mal?

E é isto que eu adorava que as pessoas entendessem.

Não é uma pizza que vos faz mal, nem um gelado, nem um batido verde, nem o que quer que seja que vos vendam como super alimento incrível. São vocês mesmos, que diariamente interiorizam que existe comida má e boa que se estão a destruir ao criarem fobias alimentares. Porque a verdade é que ninguém pode ser realmente feliz enquanto come, e está a pensar que no dia a seguir tem de ir ao ginásio não sei quanto tempo para queimar aquele “estrago”.

Hoje em dia vive-se muito para compensar sabem. Compensar os estragos do Natal, da Páscoa, do Verão ou do fim-de-semana. Passamos tanto tempo a compensar que nos esquecemos, que enquanto estamos obcecados com esta coisa da compensação, não desfrutamos verdadeiramente do momento presente. E numa era em que se fala tanto de mindfulness as pessoas estão cada vez mais desligadas dos alimentos, das suas refeições e de si próprias.

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Para mim é crime que alguém considere a comida lixo. Para mim é crime que alguém define a comida como algo bom ou mau e para mim é crime quando esta mensagem é passada nas redes sociais sem haver a mínima consciência que este tipo de mensagem pode criar verdadeiras fobias alimentares em que nos segue. As pessoas precisam de ser educadas a comer, precisam de ser educadas a lidar com as suas emoções com a comida, e esta educação nem de longe nem de perto passa por classificar a comida de boa ou de má, porque assim que o fazemos estamos a dizer ao nosso cérebro que falhamos quando tocamos na comida má.

A bem da verdade estou cansada dos ditadores da comida,

E é por isso que do fundo do meu coração adorava que entendessem que não há comida má, nem comida boa. Há sim, comida nutricionalmente mais rica e mais pobre e devia ser por aqui que devíamos guiar a nossa alimentação e não por alguém que resolveu chamar lixo à comida. Comida seja ela alface ou chocolate é comida. E o que existe no fim são escolhas que todos nós temos de fazer em consciência.

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3 Comments

  1. Responder

    Catarina (Joan of July)

    Novembro 28, 2018

    Já me estou a tornar repetitiva, mas… obrigada por este texto. E fim às ditaduras da comida, por favor!
    Sobre esta conversa da comida boa e comida má, os meus pais sempre me ralharam em criança: “Não se diz porcaria da comida!”. E isso ficou-me.

    Foi das melhores lições que eles me ensinaram, que a comida é um bem precioso, seja de que forma for. Aquilo que classificamos tão rapidamente como “porcaria” pode ser algo que salve a vida a alguém, noutra parte do mundo menos afortunada.

  2. Responder

    Joana

    Novembro 28, 2018

    Tudo faz bem, tal como tudo faz mal. Tem que haver um equilíbrio, sem excessos. Comer de tudo é tão bom! Adorei o post 🙏🏻

  3. Responder

    Daniela Soares

    Dezembro 3, 2018

    Tens tanta razão Vânia, como em tudo hoje em dia vivemos de extremismos e é uma pena…

    Another Lovely Blog!, https://letrad.blogspot.com/

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