Tem de haver espaço para não estar feliz

tem de haver espaço para estar feliz

Algum dia sentiram pressão para estarem felizes? Para adorarem a vossa vida, o vosso corpo, a vossa casa e tudo o que vos rodeia? Algum dia sentiram que estavam a ser ingratos por não agradecerem tudo o que têm?  Tenho alturas em que estas questões me assolam a cabeça. E quanto mais navego por essas redes sociais, mais me apercebo desta questão fulcral que é: Haverá espaço para não estar feliz?

Já perdi a conta às inúmeras pessoas que de repente começaram a propagar que temos todos de gostar de nós. De repente frases como “aceita-te”, “sê tu própria”, “ama-te” e tantas outras invadiram a internet e eu sinto-me numa espécie de recruta da tropa onde alguém me dita ordens que não me apetece cumprir, mas tenho de o fazer porque todos fazem. Aquilo que nos é vendido hoje em dia é que o amor próprio é o maior motor para a nossa cura pessoal e sim isto é verdade, mas poucos te dizem que antes de te conseguires aceitar vais ter que cair muitas vezes, antes de seres tu própria vais ter de passar por fases em que tentas ser outra pessoa porque pensas que não és suficiente e mesmo que te ames, vão haver sempre dias em que não gostas assim tanto de ti e é ok.

Aquilo que vejo por essas redes sociais fora é uma espécie de festa

Onde está tudo bêbado de amor e luz, onde tudo é incrível, onde a música está perfeita, as pessoas são perfeitas, a bebida é perfeita, e assim que a festa termina, cai o pano e as pessoas entram na ressaca de perceberem que os sentimentos menos felizes continuam lá, e afinal aquilo que se julgava assim tão perfeito não o é, porque nada absolutamente nada é totalmente perfeito. E camuflam-se sentimentos, porque de repente temos todos que gostar de nós, e do nosso corpo e da nossa alma. E camuflam-se sentimentos porque às vezes é mais fácil estar na festa bêbado do que enfrentar o palco sóbrio.

A aceitação pessoal é algo muito bonito quando tu estás no momento certo para te abraçares por completo, e isto significa que tens de estar preparada para enfrentar os teus demónios, porque amor próprio acaba por ser isto, ter capacidade para enfrentar os teus medos. Teres amor suficiente por ti para saberes que só conseguirás estar verdadeiramente em paz quando tentares largar aquilo que já não te serve. E falhar neste processo faz parte.

Eu não quero e nunca quis propagar felicidade extrema com este blogue.

Não quero e nunca quis propagar que só somos felizes quando nos amamos por completo, porque isso é utopia. Acima de tudo eu quero escrever-vos com a minha verdade, com aquilo em que acredito. E aquilo em que eu acredito é que não gostar de nós em determinados dias faz parte. Sentir que alguma coisa na nossa vida não faz sentido, mas não sabemos o que precisamos fazer para mudar também faz parte. Não ter todas as respostas faz parte. E mudar em qualquer altura da vida também faz parte. Tudo isto, todas estas coisas controversas que nos fazem duvidar de nós num dia e acreditar em nós no dia a seguir é que nos compõem como seres humanos. Todas estas coisas, boas, más, estranhas ou saborosas é que nos ajudam a construir o nosso amor para connosco e para os que estão à nossa volta.

Tem que haver espaço para não estar feliz, para podermos sair da nossa zona de conforto.

Tem de haver espaço para procrastinar com os nossos sentimentos para podermos dizer chega. Tem de haver espaço para aceitar que há tempo para tudo, que há tempo para mudar e há tempo para aceitar que ainda não chegou a altura de dar esse passo. Tem de haver espaço para aceitar que a vida não é uma rede social com filtros, que há uma casa para cuidar, roupa para dobrar e loiça para lavar. Tem de haver espaço para se admitir que há dias em que não me apetece pentear o cabelo ou que pura e simplesmente não te apetece aturar pessoas.

Tem de haver espaço para sentir mais com todos os sentidos e menos com um quadrado de medidas perfeitas onde se fazem upload de fotos bonitas e se colocam descrições inspiradoras. Tem de haver espaço.

Novembro 12, 2018

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6 Comments

  1. Responder

    Patrícia Zen

    Outubro 29, 2018

    Há dias assim, sem dúvida. Além da pressão externa, temos de lidar com a nossa própria pressão para ter tudo feito e agradar a tudo e todos. O dia em que percebemos que não podemos funcionar assim é o dia da nossa libertação. Porque também temos o direito de nos sentir “pra baixo”, faz parte e não há nada de errado com isso. Obrigada por, mais uma vez, trazeres este tema à tua página.

    • Responder

      vânia duarte

      Outubro 29, 2018

      somos seres humanos, a tristeza e a insatisfação compõem-nos enquanto seres vivos logo fingir que estes sentimentos não existem é palerma e até perigoso. Obrigada pelo teu comentário minha querida:)

  2. Responder

    Catarina (Joan of July)

    Outubro 29, 2018

    Obrigada por este post, Vânia! Às vezes é difícil esquecermo-nos de que nem todos os dias há “festa” e nem todos os dias nos amamos profundamente, nem à nossa casa, vida, trabalho, etc., e é ok! É ok quando temos momentos menos bons e há que saber distinguir momentos de fases e de estados de espírito negativos constantes (esses sim, que merecem ser investigados e devidamente acompanhados). Fora isso, é mais que normal. Mas sim, parece que mais que nunca existe pressão para sermos todos unicórnios. XD

    • Responder

      vânia duarte

      Outubro 29, 2018

      acho que anda tudo meio tontinho sabes. De repente deixou d haver espaço para sentir tudo. De repente tudo é perfeito, todos são felizes e todos gostam de si incondicionalmente e isto seria incrível se fosse verdade 🙂 obrigada por me leres cat 🙂

  3. Responder

    Inês

    Outubro 31, 2018

    Gosto tanto deste post. Tem de haver espaço para sermos humanos com tudo o que isso implica 🙂

    • Responder

      vânia duarte

      Novembro 3, 2018

      muito obrigada inês 🙂

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