Ninguém te diz que a cabeça é a última coisa a mudar

a cabeça é a ultima coisa a mudar

Há alguns anos atrás quando sofria de ataques de pânico recorrentes e por isso andava bastante medicada, estava a ser seguida também a nível psicológico. Para mim o momento de ir à consulta era sempre uma montanha russa, porque eu não sabia se ia sair de lá aliviada ou com a sensação de que era muito fraca. Ora certo dia em que me encontrava especialmente negra de humor a psicóloga colocou-me em frente ao espelho e pediu-me para eu me descrever. E eu com 47 kilos na altura descrevi-me com mais 20. Com aqueles mais 20kg que eu tinha perdido durante toda a luta que travei com a cabeça enfiada na sanita e durante todos os anos seguintes de dietas e produtos para emagrecer.

E ela pedia-me especificamente para descrever o que eu via.

E eu apontava para as pernas e para as ancas e chorava compulsivamente enquanto lhe dizia: “Eu sou uma orca não entende?”. Depois, ela espalhou papel de cenário no chão e pediu para eu me desenhar tal e qual eu me via no espelho. Assim que terminei de desenhar o contorno daquele corpo que eu via, ela pediu-me para me deitar e com a caneta contornou todo o meu corpo e o resultado foi que, o contorno real dela era mais de metade daquilo que eu tinha desenhado.

E aqui, neste exacto momento eu tive o meu primeiro choque com a minha imagem corporal distorcida. Ora eu não fiquei curada naquele dia (nem nos muitos dias e anos que se seguiram), mas aquilo foi o início do despertar da minha consciência para o facto de eu me ver de uma forma que já não existia e isto acontece porque nunca ninguém te prepara para o facto da cabeça ser efectivamente a última coisa que muda, o que acaba por trazer uma série de ações atrás. Eu pesava pouco, mas usava camisolas muito maiores do que o meu número pois não conseguia entender que outros números me serviam. Eu sentava-me na praia ou numa cadeira e colocava automaticamente as mãos à frente da barriga para tentar esconder uma gordura que na minha cabeça estava ali. Eu mudei, o meu corpo mudou, deixei de vomitar, mas a imagem que eu tinha continuava ali.

E isto é tramado sabem, é isto que torna os distúrbios alimentares tão complicados de serem tratados

Porque aquilo que assumes como verdade absoluta durante muito tempo, acaba por se enraizar de tal forma em todo o teu ser e não há nada, absolutamente nada que te possam dizer em contrário que te vá fazer ver as coisas de outra forma. Pelo menos assim de um dia para o outro. E é por isso que apesar de eu acreditar no amor-próprio e na aceitação pessoal, eu sei porque já estive daquele lado negro, que dizer a alguém com uma imagem corporal distorcida para se aceitar como é, é falar uma lingua desconhecida, e que são precisos muitos pequenos passos, muitas grandes quedas e desvios e muitos avanços espaçados para alguém conseguir dizer “Eu aceito-me”.

Pelo menos eu, admito sem pudores que ainda hoje, tenho dias em que preciso de interiorizar à bruta que aquela imagem que um dia existiu, está lá atrás muito no passado. E não há mal isto acontecer, porque ninguém, absolutamente ninguém gosta de si todos os dias, e desde que os dias de paz sejam muito maiores que os dias de luta com a cabeça está tudo certo.

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4 Comments

  1. Responder

    Joana

    Agosto 1, 2018

    Olá, queria dizer-te que és a inspiração viva e uma das mais bonitas que já vi. Um beijinho, Joana

    • Responder

      vânia duarte

      Agosto 1, 2018

      oh querida Joana, muito muito obrigada por tanto carinho <3

  2. Responder

    Luisa Carvalho e Gomes

    Agosto 6, 2018

    Nem sei o que dizer deste texto, vieram-me as lágrimas aos olhos, porque conseguiste colocar aqui por escrito tudo aquilo que sinto. Vânia nunca pares de fazer o que fazes.

    • Responder

      vânia duarte

      Agosto 6, 2018

      Querida Luisa nem sei o que dizer, fico mesmo fe coração cheio por saber que as minhas partilhas podem fazer diferença na alma de alguém. um grande beijinho.

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