Como se fala verdadeiramente de ansiedade?

ansiedade e síndrome do panico

Se há algo sobre o qual eu tenho dificuldade em falar, é sobre ansiedade. Ou síndrome do pânico se quisermos ser mais técnicos. Na realidade há poucas coisas que me deixam desconfortável a escrever, mas este tema é sem dúvida um deles.

E é provável que se estejam a perguntar: porque raio estou eu a escrever sobre isto, se me deixa desconfortável? A resposta acaba por ser simples. É bom enfrentarmos as coisas que nos deixam desconfortáveis. Foi o que fiz há 6 anos atrás, quando decidi procurar ajuda para este meu problema. E é o que faço agora ao falar deste tema.

A verdade é que eu já escrevi sobre ansiedade antes aqui no blogue.

Fosse a ansiedade que me levava a comer toda uma despensa. Fosse a ansiedade e a posterior depressão, que me levaram a estar durante um ano medicada e a fazer psicoterapia durante um ano e meio. E já ter escrito sobre isto algumas vezes não o torna mais fácil, porque a verdade é que até hoje ter sofrido de síndrome do pânico foi dos momentos mais angustiantes da minha vida.

E foi acima de tudo porque durante muito tempo senti-me sozinha. Não no sentido de ter apoio mas sim no facto de achar que era a única pessoa do mundo que passava por aquilo. E aquilo era exactamente o quê? Durante muito tempo eu não tive um nome concreto. Durante muito tempo foi só um corpo que se descontrolava totalmente. Um corpo onde o coração batia mais rápido do que devia. Um corpo que tremia. Um corpo onde o braço esquerdo ficava dormente e a cara paralisada. Um corpo que era meu, mas que durante meses eu senti totalmente fora do meu controlo.

Começar a sofrer de algo assim, sem razão aparente deixou-me durante algum tempo bastante revoltada.

Eu tinha 26 anos e era muito complicado para mim, explicar porque é que aquilo me acontecia. Eu não tinha um nome para lhe dar. Não tinha um motivo. Apenas sabia que um dia estava bem e no outro dia não. Num dia estava em casa e no dia a seguir estava no hospital a achar que ia morrer do coração.

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E li muito. Li demasiado na internet à procura do que eu pudesse ter.

À procura de uma palavra. De um significado, de alguma coisa que me fizesse sentido e durante muito tempo, cruzei-me com vários possíveis resultados mas nenhum se chamava síndrome do pânico. Até que este problema acabou por ter, efectivamente um nome. Muitos exames depois a um coração mais do que saudável o bicho papão síndrome do pânico apareceu. E eu, que sempre achei que ao ter um nome ficaria mais em paz, revoltei-me ainda mais.

Imaginem o cenário. Uma miúda com 26 anos. Com um trabalho que gostava, um namorado que amava, e uma casa incrível ao pé da praia. Uma vida no geral bastante feliz e pautada por bons amigos e boas viagens. De repente, como por magia, é-lhe diagnosticado síndrome do pânico, assim sem ela ter uma razão plausível para explicar o porquê. Quando eu percebi o que tinha senti-me primeiramente injustiçada. Porquê comigo? Porquê agora? Que mal fiz eu para merecer isto? Uma doença que não é palpável mas que magoa muito.

Depois, senti-me sozinha. Efectivamente achei que era a única pessoa no mundo que sofria disto.

Comecei a ler coisas na net, encontrava alguma informação, mas ninguém à minha volta tinha passado pelo mesmo. E esta solidão, de não poderes socorrer-te de alguém que entende pelo que tu passas é assustadora. Ou na realidade pensava eu que era.

Porque a verdade é que agora, passados 6 anos, eu percebo que o síndrome do pânico é uma doença muito pessoal. E que sim, ajuda saber que não és louca e que não estás sozinha no mundo. Ajuda saber que este tipo de doenças afectam mais pessoas do que tu pensas. Mas no fim de contas, a minha razão interior não é igual à tua e é exactamente por isso, que por mais que encontremos pessoas que passem pelo mesmo, a caminhada para a cura é muito pessoal.

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E é por isso que fico sempre meio sem saber quando me pedem ajuda sobre este tema.

Não porque não entenda a pessoa, mas porque acaba por ser complicado ajudar um problema, que tem uma razão muito tua, e que só tu tens a capacidade de enfrentar. São várias as pessoas que me perguntam sobre a medicação que tomei. Se fez efeito. Se me ajudou a equilibrar-me mentalmente. A minha resposta acaba por ser sempre, que a medicação deu-me o melhor e o pior exactamente ao mesmo tempo. Deu-me capacidade para me erguer e deu-me uma versão da Vânia mais apagada e com muito menos essência. O corpo efectivamente estava calmo, controlado se lhe quiserem chamar assim. Mas não passava disso mesmo, um corpo que se movia para onde tinha de ir. Que estava onde tinha de estar. Mas que não estava na sua verdadeira essência.

Para mim em todo este processo, aquilo que sempre me custou, foi efectivamente falar sobre isto. Mais do que ter de falar, sobre os problemas que tinham levado aquele meu estado, o que sempre me custou foi explicar por A mais B que aos 26 anos sofria de ansiedade e que isso tinha limitado a minha vida ao ponto de perder o total controlo do meu corpo. E acredito que seja o maior problema de quem sofre de ansiedade. Explicar o porquê. Explicar como. Explicar quando. Explicar como é que se vai de um extremo ao outro tão rápido. E acima de tudo explicar isto a quem mais te ama. E eu entendo. Para quem está à nossa volta é muito complicado de perceber isto. Num momento estás bem, no outro não estás e não consegues explicar o porquê.

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Desapega-te do medo. Apega-te à liberdade.

É efectivamente o problema destas doenças. Não são palpáveis.

E é por isso que acredito que sejam das mais complicadas de superar. Porque andas muito tempo a tentar encontrar razões. E sempre que achas que tens tudo controlado. As coisas descontrolam-se novamente.

Se é possível vencer o síndrome do pânico? Sim. Eu venci. Pelo menos quero acreditar que sim. Ainda tenho alguns ataques. Muito, muito menos do que tinha na verdade. Se é possível viver uma vida sem medicação e sem medo de vires a colapsar no meio da rua, com um medo terrível de algo? Sim.

Se é fácil. Não. Nem de longe nem de perto.

E foi provavelmente das batalhas mais desconfortáveis e duras da minha vida. Mas foi o desconforto que me levou a procurar ajuda. Foi o desconforto que me levou a acreditar que a psicoterapia me podia guiar. Foi o desconforto que me levou a voltar a escrever sobre tema. E tem de ser o desconforto a fazer-te querer encontrar um caminho. Mesmo que tenhas de entrar e sair de muitas portas antes de chegares à derradeira saída. Aquela que te vai finalmente fazer perceber que tu e só tu, tens a capacidade de dominar isto por completo.

E é por isso que a melhor forma de responder à pergunta: “Como se fala verdadeiramente de ansiedade?” é:  Com desconforto. Desconforto de assumir. Desconforto de enfrentar. Mas sempre com desconforto. 

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8 Comments

  1. Responder

    Catarina

    Janeiro 15, 2018

    Como eu costumo dizer, a ansiedade é um bicho tramado. Instala-se de mansinho e, quando damos conta, já se apoderou da nossa vida. Comecei com os primeiros “sintomas” de ansiedade aos 15 anos, logo após a morte da minha avó (foi a primeira vez que senti que me tinham tirado o chão). A partir daí, foi evoluindo, evoluindo, mas sem que eu lhe desse demasiada importância. Fui perdendo algumas pessoas, de forma um pouco inesperada e violenta, o que ajudou ainda mais à festa. Cheguei a um ponto em que o simples tocar do telefone me deixava em pânico e completamente paralisada, e eu não conseguia atender porque, na minha cabeça, iriam dar-me mais más notícias. Entretanto, fiquei doente, até saber o que tinha foi todo um filme, e foi aí que comecei com os primeiros ataques de pânico mais violentos (a pior sensação que já tive na vida) e percebi que precisava de ajuda. Fiz psicoterapia durante muito, muito tempo e foi a terapia que me salvou. Depois conheci o Reiki e outras terapias alternativas, comecei a meditar e, finalmente, encontrei o meu equilíbrio. Não tomei medicação por opção, apesar de ter a noção de que precisava dela. Hoje sou uma outra pessoa. Se continuo a sentir-me ansiosa em determinadas situações? Continuo. A diferença é que agora sou eu que controlo a ansiedade e não o contrário. E sim, é muito desconfortável falar sobre isso, assumir que temos um problema, que precisamos de ajuda. Mas, por outro lado, também é terapêutico e pode ajudar outras pessoas que estão a passar ou já passaram por isso.
    Obrigada por mais esta partilha, querida Vânia 🙂
    Um grande beijinho**

    • Responder

      vânia duarte

      Janeiro 15, 2018

      querida Catarina muito obrigada por teres aberto o teu coração, fico sempre muito grata quando vejo que quem me segue se sente à vontade para partilhar um bocadinho de si. Fico feliz que tenhas conseguido superar e que hoje em dia a ansiedade esteja controlada. É complicado e demorado mas efectivamente é possível 🙂 um grande beijinho

  2. Responder

    Sónia Rodrigues Pinto

    Janeiro 15, 2018

    Há uns meses atrás mandei-te uma mensagem no Instagram a dizer-te o quão aliviada eu estava por, no dia em que marquei a minha primeira consulta de psicoterapia, teres feito uma publicação sobre a tua experiência com a psicoterapia. Hoje, estou aqui a ler sobre a ansiedade quando, com a minha psicóloga, abordámos sobre a minha experiência com a ansiedade. Há aqui qualquer coisa que me está a querer chamar a atenção, e agradeço imenso ter começado a ler sobre a tua jornada porque, por muito distinta que tenha sido da minha, me deu de alguma forma forças para aguentar a minha própria batalha, a minha caminhada em direcção a uma Sónia mais equilibrada. Nem te consigo dizer o quão importante aquela pequena mensagem foi para mim e o quanto gosto de ler estes teus textos. Que continues a ser assim, capaz de partilhar as tuas histórias, porque podem ser diferentes das nossas mas, ainda assim, ajudam e muito. E que aprendamos todos a lidar com este bicho papão que é a ansiedade, um problema cada vez mais comum mas, sem dúvida alguma, extremamente pessoal.

    Mais uma vez, obrigada <3

    • Responder

      vânia duarte

      Janeiro 15, 2018

      sónia a sério eu juro que nem sei o que dizer. Acredita mesmo que o melhor presente que posso ter é saber que aquilo que partilho faz efectivamente diferença positiva na vida de alguém. Se há dias em que me questiono sobre tudo isto de ter um blogue e do trabalho que dá, acredita que são estes pequenos mimos que me dão força para continuar a escrever com o coração nos dedos. um grande beijinho

  3. Responder

    Chris

    Janeiro 20, 2018

    Adorei o texto muito bom mesmo.

    Adorei o seu blogue e te sigo

    • Responder

      vânia duarte

      Janeiro 20, 2018

      obrigada 🙂

  4. Responder

    Chic' Ana

    Março 23, 2018

    Este testemunho é mesmo muito importante.
    É dificil falar ainda destes problemas, mas que tanta, tanta gente os tem, os sente…
    Obrigada pela coragem!
    Beijinhos

    • Responder

      vânia duarte

      Março 26, 2018

      muito muito obrigada pelo teu comentário 🙂

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