Psicoterapia – Não existe vergonha em pedir ajuda

ter vergonha de fazer psicoterapia

Há umas semanas recebi um e-mail de desabafo de uma seguidora sobre a obsessão que tinha com a comida e com o peso. Estivemos a trocar e-mails durante um longo período até que eu lhe sugeri, porque não tentar a psicoterapia e ela respondeu-me, que tinha vergonha.

Tinha vergonha de contar à família e aos amigos. Tinha vergonha de ser olhada de lado, ao estar a recorrer a um psicólogo por causa de se descontrolar com a comida. Tinha vergonha que a julgassem porque assuntos de peso e comida são sempre tidos como “manias femininas”.

E isto entristeceu-me muito.

Porque efectivamente há muita gente que faz psicoterapia e tem vergonha de o assumir exactamente para não ser julgado. E há muita gente que não o faz por vergonha de admitir que precisa de ajuda. Há acima de tudo vergonha, em assumir que um ou dois dias por semana se vai ter com um estranho para desabafar tudo o que não conseguimos dizer às pessoas que nos rodeiam.

Quem recorre a este tipo de ajuda, sente-se muitas vezes com medo de ser olhado de lado. Seja porque as doenças de foro psicológico continuam a ser para muita gente manias, ou porque muitas vezes vão querer saber o que fazes na sessão, o que o psicólogo diz, se choras, se saltas, se te deitas no sofá com um tipo a olhar para ti a fazer “hum hum” ou até se te ligas a máquinas. E de repente dás por ti no meio de um qualquer filme de hollywood, e tentar explicar vezes intermináveis que a psicoterapia é muito mais do que se vê nos filmes é cansativo.

Fazer psicoterapia é uma grande viagem tanto física como emocional. É duro mas ao mesmo tempo libertador.

A verdade é que todos temos bons amigos com quem desabafamos. Parceiros que amamos e a nossa família. Mas há coisas que por alguma razão não contamos a ninguém, coisas nossas, sentimentos nossos que simplesmente optamos por guardar.

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa muito extrovertida, falo bastante sobre tudo mas não falo do que me magoa ou me provoca instabilidade. Para mim sempre foi muito complicado falar sobre o que realmente me incomodava fosse com quem fosse e a psicoterapia faz-me efectivamente falar. Porque é um estranho, alguém que não sabe nada de ti portanto não te vai julgar e tem um bónus que é ter um código profissional que não lhe permite contar a mais ninguém o que se passa ali dentro, portanto falar com uma pessoa assim é ouro sobre azul.

Depois estas sessões levam-te a descobrir pequenos problemas que tens como entrave e nem sabes disso. Coisas que estão encerradas no teu inconsciente mas que de alguma forma, fazem com que tenhas bloqueios de personalidade. Foi graças à psicoterapia que acabei por descobrir o motivo de ter ataques de pânico. E o porquê de terem começado assim supostamente sem razão aparente.

Porque nada acontece sem razão aparente.

O teu corpo é demasiado inteligente. Quando te dá sinais fortes, que se manifestam com ataques de pânico, depressão ou crises emocionais com a comida, está simplesmente a avisar-te que algo não está bem. Não te está a dizer que és louca. Não te está a dizer que tens manias, está sim a dizer-te que não está equilibrado. Está sim a pedir-te ajuda.

E para mim foi uma lufada de ar fresco conseguir falar e perceber porque sofria de ataques de pânico. Porque eu tinha vergonha de falar disso. Acima de tudo tinha vergonha de não saber responder à simples questão: “Então mas porque é que tens isso?”.

E as pessoas acabam por ficar de pé atrás

Quando lhes dizes que não sabes porque é que o teu corpo treme descontroladamente, porque é que o teu coração dispara e porque é que tens a certeza que irás morrer naquele preciso momento. Por isso quando não consegues explicar acabas por te fechar. Acabas por assumir que há-de passar, quando na realidade não fazer nada é a pior coisa que podes efectivamente fazer.

Um bom psicólogo leva-te inconscientemente a conduzires a sessão sem te aperceberes, e acima de tudo entende que nem sempre estás com vontade de falar. Tive sessões em que praticamente não falava e acabava por me expressar com papeis. Tive sessões em que muitas vezes escrevi imenso – que é onde sou efectivamente boa a falar de sentimentos. E acabou por ser fácil para ela perceber que um dos meus grandes problemas era a aceitação da minha imagem. E a forma distorcida como eu me via.

Lembro-me que uma vez, ela colocou um papel branco gigante no chão e mandou-me desenhar como é que eu me via, depois pediu-me para me deitar em cima do desenho e com uma caneta contornou todo o meu corpo. O resultado foi que o desenho dela era mais de metade do meu.

Apanhei um grande choque e chorei muito

Porque na minha cabeça eu ainda era aquela miúda gordinha. Que tinha desenvolvido bulimia por terem gozado com as minhas ancas e que vomitava para se tentar livrar da gordura. Este choque ajudou-me a superar alguns traumas que tinha relativamente a este assunto. Ajudou-me a perceber o porquê de usar a comida como escape emocional. E o mais importante, a psicoterapia ajudou-me muito a conseguir controlar os ataques de pânico.

Se ainda os tenho? Muito raramente mas sim ainda tenho. A questão é que já não são com a intensidade que eram. E acima de tudo eu já não os assumo como presságio iminente de morte. Hoje em dia a forma como eu encaro um ataque de pânico é totalmente diferente e por isso não duram tanto tempo nem me afectam com tanta intensidade. isso deve-se efectivamente ao processo de descoberta que passei na psicoterapia.

Por isso gostava mesmo, tu que me lês.

Que estás a passar por um momento mais delicado, que tens ataques de pânico e achas que nunca haverá solução. Que sofres de fome emocional, achas que és fraca e que terás de viver com isso para sempre. Não te acomodes a uma situação que te provoca dor.

Não aches que é algo normal, porque viver em descontrolo nunca será normal. Não aches que as coisas têm de ser assim para sempre. E acima de tudo não tenhas vergonha de pedir ajuda.

Fá-lo por ti, pela tua qualidade de vida e porque mereces viver sem medo seja do que for.  E não há mal nenhum em admitir que para o fazeres, precisas da ajuda de um estranho.

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