O meu Sem Cojones e já agora…Sem Perna!

uma das passagens do diz-lhe que não da helena magalhães que inspirou este texto

Hoje fala-se de Sem Cojones.

Creio que nesta altura do campeonato, já toda a gente tenha ouvido falar sobre o maravilhoso livro da Helena Magalhães – Diz-lhe que não – que já esgotou em algumas livrarias e que é daqueles livros que se consomem de uma vez só de tão divertido que é.

Eu comprei o livro no dia a seguir a ter saído. E demorei uns 2 dias a terminar. Porque cada página que avançava, mais vontade me dava de continuar a ler todas aquelas histórias que sendo divertidas, trazem várias lições para a vida. Entretanto, depois de o ter comprado, falei dele à minha mãe e ela mostrou-se logo interessada em lê-lo.

helena magalhães blogger e escritora do the styland

 

Uma das coisas que sempre admirei na minha mãe foi o seu gosto pela leitura.

Ela consome livros a uma velocidade brutal. E desde muito pequena que me incutiu esse gosto. Comprando-me livros frequentemente.E incentivando-me a ler bastante nos meus tempos livres.Portanto assim que acabei o Diz-lhe que Não e estando ela a terminar um outro livro que andava a ler, lá lhe passei o testemunho.

A minha mãe começou a ler e gostou logo. Até que numa destas noites recebo a seguinte mensagem “Filha tu também tiveste um sem cojones….era o sem perna com quem andaste, ahahahha”.
Juro-vos, quando li aquela mensagem morri a rir. Contei à Helena por mensagem no Instagram e depois de me rir com a minha própria mãe dei por mim a pensar duas coisas:

1 – Caramba a minha mãe tem mesmo razão.

2 – Como é que não me lembrei que o sem perna foi mesmo o meu sem cojones??

Para quem ainda não leu o livro é provável que este texto seja um bocadinho spoiler

Para quem já leu sabem claramente quem é o desgraçado do sem cojones que a Helena fala no livro. E eu ao receber a mensagem da minha mãe. Resolvi fazer uma breve análise sobre este sem cojones de quem a minha rica mãe se foi lembrar. Mas…para vos falar do meu sem cojones vou ter de vos falar de outra pessoa.

Tinha eu 17 anos quando conheci a – vamos chamá-la de M. Uma rapariga um pouco mais velha que tinha ido parar à minha turma e que no dia da apresentação ficou sentada ao meu lado. A M era bonita, loira, magra e com uma personalidade muito divertida e bem disposta, o contrário de mim que era gorda, com borbulhas na testa e sofria de bulimia.

Por alguma razão houve uma verdadeira conexão com a M.

Ela já tinha sido anorética. Portanto tínhamos algo que nos ligava. Mas era o facto dela transpirar independência e liberdade que me fascinava. Eu na altura dizia que queria casar e ter filhos cedo. Queria ter alguém me amasse, que se apaixonasse perdidamente por mim. Que me fizesse viver um verdadeiro conto de fadas. Conto esse que na minha cabeça só as pessoas magras o viviam. No fundo eu queria que gostassem de mim. Tal como escrevi neste post sobre o dia dos namorados.

Já a M. dizia que queria trabalhar em Publicidade. Ser independente e viajar muito pelo mundo. Por isso filhos e casar não faziam parte dos seus planos no futuro. Para além disso ela achava que os homens só traziam chatices. Ora eu que nunca tinha namorado e ansiava que algum rapaz conseguisse ver para lá o meu peso, achava toda esta forma de pensar dela absolutamente genial.

feminismo, amor próprio e o sem cojones

Tornámo-nos amigas ou melhor tornámo-nos inseparáveis.

A M. passou a fazer parte da minha vida de uma forma diária. Trocava-mos segredos. Ela ficava na minha casa várias vezes e toda uma amizade cresceu ali. Comecei a fumar com a M. (sim eu fumei até aos 24). Saí à noite pela primeira vez com a M. e apanhei a minha primeira bebedeira a sério com a M.

Até que um dia em que estávamos a tomar café, ela disse que vinham ter connosco dois rapazes o J. e o N. e foi exactamente aqui que eu o conheci… O N era um rapaz mais velho. Tinha 24 anos. Era muito bonito, simpático, sabia falar e estar e por alguma razão que eu desconhecia decidiu falar comigo.

Estão a perceber o estado de loucura interior?

Eu a gorda. Que nunca tinha namorado, tinha um rapaz mesmo mesmo giro a falar comigo e a mostrar interesse em mim? Trocámos números de telefone. Começámos a falar regularmente. E num espaço de pouco tempo a M começou a namorar com o J e eu, como por um milagre divino qualquer que não entendia. Comecei a namorar com o N, o rapaz super giro que se tinha interessado pela gorda.

Ora quando nos conhecemos, ele disse-me que quando era miúdo tinha tido um acidente e que tinha uma parte do corpo queimada e uma prótese. Mas eu, miúda completamente apaixonada por aquele rapaz que era efectivamente muito bonito, não liguei grande coisa ao que ele me disse. Até porque conheci-o no Inverno e só tinha reparado no pulso dele com uma queimadura.

Os meses passaram e deu-se o inevitável

O rapaz levou o Santo Graal da minha inocência (de uma forma nada romântica nem memorável, mas não falemos disso). E aí sim, pude ver que grande parte do corpo dele estava mesmo queimado e sim….abaixo do joelho ele não tinha o resto da perna. Não vos vou mentir a dizer que não me impressionou. Mas a verdade é que eu sofria de bulimia na altura e sempre odiei o meu corpo. Portanto acabei por o aceitar quase como se nós os dois tivéssemos marcas de guerra no nosso corpo. Estando assim destinados um ao outro.

Entretanto aqui pelo meio entra a senhora minha mãe. Que desde muito cedo não gostou dele e fazia questão de o demonstrar. Eu, óbvio que com 17 anos, achava que a minha mãe era só palerma e defendi-o com unhas e dentes. Enquanto a minha mãe sempre me disse que aquele rapaz não gostava de mim.

Até que….sem que nada o fizesse prever o sem perna…desculpem o N.

Diz-me que vai passar uma temporada à casa dos tios e primos na Alemanha, assim tipo umas férias que decide tirar e avisa-me 2 dias antes de ir. Eu fiquei triste e ele prometeu que me iria ligar todos os dias, que também lhe custava ir, mas que já não via aquela parte da família há algum tempo.

A minha mãe quando soube disto, avisou-me logo que aquilo cheirava a esturro. Ninguém decide que daqui a 2 dias vai só ali passar uma temporada à casa da família na Alemanha. Só porque tem saudades. Ahhh e acho que não vos contei mas nesta casa, havia uma prima (gira por sinal) com quem ele já tinha andado enrolado no passado (blhec…olhando para trás só me ocorrem duas palavras – NOJO e ESTRANHO). Mas na altura para mim estava tudo bem. Porque no fundo eu gostava daquele rapaz. Que se tinha interessado por mim mesmo tendo excesso de peso. E não queria fazer nada que o levasse a pensar que eu não era a rapariga certa. Portanto lá foi o rapaz ter com a família para a Alemanha e eu fiquei cá com a M.

quando um homem te engana e te troca pela melhor amiga

Lembram-se do Sem Cojones e Sem Perna me ter dito que me ligava todos os dias?

Pooooois, não aconteceu. Passaram duas semanas e nada. O telemóvel estava desligado e eu não tinha outro contacto para lhe ligar. Por isso comecei a ir-me muito abaixo e desabafava imenso com a M. Chorei muito nos braços dela e ela sempre esteve lá para mim. Sempre me transmitiu muito apoio e carinho. Era sem dúvida a amiga que eu precisava na altura. Até que um dia por magia o telefone de casa toca e quem era?

O SEM PERNA CLARO ESTÁ…desculpem o N. Lá estava ele, maravilhoso ao telefone, duas semanas depois de ter partido para a Alemanha, a pedir desculpa por não ter ligado antes, mas tinha perdido o telemóvel e só tinha conseguido ligar agora porque no sítio onde estava…NÃO HAVIAM TELEFONES.

PÁRA TUDO OK!

O rapaz vai para a Alemanha, para casa da prima com quem se tinha enrolado na adolescência e liga-me passadas duas semanas a dizer que só o estava a fazer agora porque não haviam telefones e o que faço eu?
Acredito claro está, acredito, desculpo-o e digo que tenho muitas saudades.

Conseguem perceber o grave disto? O rapaz não estava no Burkina Faso. O rapaz não estava no Congo. Ele estava no raio da Alemanha a dar-me a pior desculpa do mundo e eu feita palerma acreditei nisto? Pior, a minha mãe quando soube disto riu-se. Juro-vos riu-se mesmo. Mas hoje consigo perceber que aquele era um riso de ódio. Porque o sem perna estava efectivamente a gozar comigo e a ser um merdas de um sem cojones.

E pronto, o telefonema terminou

O sem perna disse que ia ficar na Alemanha mais uma semana e que quando regressasse me ligava. Disse também que gostava muito de mim e que aquelas semanas o tinham feito perceber que eu era mesmo especial – código para “comi a minha prima e não sei bem o que fazer agora”.

Passou essa semana. Passou mais outra e eu continuei sem notícias dele. Desabafei muito com a M. sobre esta situação, a M. entretanto também desabafava comigo pelo facto de ter terminado com o J. E eu cada dia que passava tinha mais a certeza que algo não estava bem. Até que num belo dia o sem perna e sem cojones liga e diz que quer falar comigo. Lá nos encontrámos e entre tantos “tu és uma miúda especial” o “problema sou eu não és tu”, o sem perna que desapareceu durante semanas e que me diz não ter ligado porque NÃO HAVIAM TELEFONES NA ALEMANHA, aparece e acaba comigo assim sem dó nem piedade.

Chorei muito

Chorei por alguém como nunca tinha chorado antes, odiei-me, coloquei todas as culpas em mim, porque era gorda, porque era feia, porque não tinha sido o suficiente e desabafei muito com a M sobre isto e ela lá me ia dando o devido apoio, até que num belo dia a M. diz que precisa de falar comigo, porque é minha amiga e não aguenta mais aquela dor que anda sentir e assim a seco diz-me:

– Eu estou com o N.
Quando ele voltou da Alemanha, ligou-me porque te tinha traído com a prima e não sabia o que havia de fazer. Então quis desabafar comigo. Eu também não andava bem com o J e acabámos por nos apaixonar. Não tivemos culpa… aconteceu.

Juro-vos que me consigo lembrar destas palavras. Exactamente de toda esta frase que ela me disse. Com um ar de “desculpa lá ele meteu-te os cornos e enquanto achavas que ele estava na Alemanha e andavas a chorar no meu ombro eu andava a comê-lo, mas amigas como antes sim”.

Foi duro para mim e agravou ainda mais o meu ódio com o corpo

Fez-me vomitar mais. Fez-me comer mais. Fez-me querer morrer. Mas como em tudo na vida as mães que TÊM SEMPRE RAZÃO, servem exactamente para nos dar as mãos quando estas M. e estes N. da vida, destroem aquilo que de mais precioso as mães têm. E depois de muitas lágrimas derramadas. Eu decidi contar a todos os amigos em comum e a todas as pessoas da nossa turma o que eles tinham feito e uma grande corrente de apoio se formou à minha volta, colocando-a completamente de lado na escola o resto do ano.

Hoje em dia eu conto esta história por piada.

Por olhar para trás e perceber o quanto fui ingénua. Mas depois da minha mãe ter feito a analogia do sem cojones eu percebi mesmo que isto só me aconteceu porque eu tinha uma auto estima tão em baixo que achava que era uma sorte ter alguém que gostasse de mim, portanto devia fazer de tudo para o manter e isso incluía engolir coisas como não me ter ligado porque não haviam telefones.

E tal como a Helena tanto fala no livro dela. É exactamente sobre isto que o mundo está cheio. De relações feitas de alguém que não gosta e não tem cojones para admitir, versus tantas mulheres que sentem que ter aquilo é uma sorte e que se a relação não funciona é porque a culpa é delas. Há relações que simplesmente não funcionam. E por mais que custe é melhor estar-se sozinho. As pessoas não são obrigadas a gostar todas umas das outras. Mas deveriam ser sim obrigadas a tê-los no sítio e a falar sempre a verdade.

Sim, ele foi um sem cojones

Porque percebeu que não gostava de mim e em vez de terminar tudo, fugiu para a Alemanha. Comeu a prima e depois comeu a minha “amiga”. Foi um sem cojones porque brincou comigo. Fez-me acreditar numa relação que nunca existiu. Porque vendo as coisas a frio eu dei muito mais do que ele. E apesar de durante muitos anos, ter achado que perdi mais por me ter entregado, hoje em dia que um dos maiores lemas da minha vida é o amor-próprio, consigo perceber que não…ele e ela é que perderam muito mais do que eu, porque se há coisa em que acredito é que a vida se encarrega de nos fazer pagar mais cedo ou mais tarde por tudo aquilo que fazemos…

Lembram-se daquela miúda decidida que era a M.?

Que dizia que queria ser publicitária, viajar e filhos nem ver? Engravidou dele ainda nem tínhamos acabado a escola, e depois disso já vieram mais 3 filhos. Pelo meio saltou de emprego em emprego. Nunca viajou para porra nenhuma e acabaram por emigrar para França onde foram viver de caridade familiar.

Já eu…tenho viajado para uma porrada de sítios. Tenho uma relação feliz. Perdi peso, venci uma bulimia e uma depressão. Trabalho no que gosto e posso finalmente dizer que me amo mesmo. Mas acredito que a maior conquista. É conseguir perceber passados estes anos todos, que tal como diz a música da Lúcia Moniz que dá o nome ao livro da Helena:
É sempre mais feliz aquele que mais amou.

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14 Comments

  1. Responder

    Flicker

    Março 27, 2017

    Outras pessoas e outros caminhos estavam destinados para ti! Ainda bem que o teu caminho nao era com o "sem cojones" 🙂

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 27, 2017

      é isso mesmo 🙂

  2. Responder

    The Brunette's Tofu

    Março 27, 2017

    Tu és linda! E eu tenho uma história parecidíssima a essa e uma reviravolta na minha vida também muito semelhante à tua.

    O destino encarrega-se de dar a cada um aquilo que bem merece, segundo a minha mãezinha sempre me diz <3

    thebrunettetofu.blogspot.pt

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 27, 2017

      Acho que a maior parte de nós tem uma história deste género e cabe-nos aprender a abrir a mente e a tirar o máximo de aprendizagens que este tipo de situações nos trazem 🙂 beijinhos grandes

  3. Responder

    Bárbara Lopes

    Março 27, 2017

    Adorei o texto! Acho que já todas tivemos um desses na nossa vida 🙂

    http://anetadaluisa.blogs.sapo.pt/

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 27, 2017

      obrigada 🙂

  4. Responder

    Sandra Paço

    Março 27, 2017

    Quem é que na sua adolescência nunca teve um sem cojones? Quem nunca?! Ahaahahahah 🙂
    As coisas que me fez lembrar 😛

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 27, 2017

      ahahahha faz parte sim 🙂

  5. Responder

    Anónimo

    Março 27, 2017

    Que comparação infantil! Na adolescência apenas protejamos os nossos sonhos e que ao longo do tempo se torna muito permeável. Podes levantar a taça, és a maior! esse ar de superior relativamente à tua amiga denoto aí uma pequena vingança,um ar de superior, próprio da pessoas fracas! Se conseguiste atingir os teus objetivos, otimo! Mas nunca sabemos o dia de amanhã, acredita a vida às vezes dá-nos cada volta
    ao longo da nossa vida. Hoje estamos up amanhã out. Por isso, mais humildade, por favor

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 27, 2017

      Querido ou querida Anónimo/a sabes o que é próprio de pessoas fracas e infantis? Deixarmos comentários amargos e acusatórios a alguém que nem conhecemos (ou será que conhecemos) exactamente de forma anónima, sem mostrar a cara, sem assinar o nome, procurando refugio nesta maravilha das redes sociais onde somos todos grandes heróis por trás de um ecrã. A humildade começa exactamente em assumirmos as nossas opiniões sem nos escondermos.

      Beijinho grande sim?

    • Responder

      Anónimo

      Março 27, 2017

      Mais uma vez ganhou, que falta de argumentos!! Mesma treta de todo as blogueRS. Não te conheço e só abri a página pq estava indicada no FB e como reconheci o livro abri. Caso contrário, esta história passava-me ao lado!

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 27, 2017

      Pelos vistos não passou tão ao lado porque a querida/querido anónimo voltou cá <3

      Beijinho apertado no coração <3

  6. Responder

    Joana Sousa

    Março 28, 2017

    Oh Vânia, que novela, cruzes! Há com cada peça…mas bom, a vida dá as suas voltas, e olha, se alguém desaparece, é porque tinha que ser – e ainda bem que assim foi! 🙂

    Jiji

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 28, 2017

      sim no final de contas e fazendo um balanço consigo perceber que ganhei muito mais do que efectivamente perdi e isso já é um bom motivo para olhar para esta história com outros olhos 🙂 beijinhos

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