A vergonha de um antidepressivo

a vergonha de tomar um antidepressivo

Uma grande amiga minha perguntou-me há uns tempos, o que é que se sente quando se toma um antidepressivo.

Ela estava acima de tudo curiosa sobre como é que eu me sentia durante o dia. E de todas as coisas que eu lhe podia dizer como, uma calma meio estranha e uma dormência na alma, aquilo que eu mais sentia era vergonha. Uma vergonha tremenda por não entender como tinha chegado aquele ponto. E acima de tudo por perceber que eu precisava de me drogar para conseguir viver em sociedade.

Eu sei que a palavra drogar parece muito dura

Mas não há outra forma de categorizar este tipo de medicação que te agarra e te molda do jeito que tu precisas para enfrentar o mundo e que muitas vezes adormece a tua essência para te fazer existir de uma forma “normal” no mundo. São drogas a partir do momento em que causam uma grande dependência e tu só te apercebes disto exactamente quando a tentas deixar. Quando me foram diagnosticados em 2013 os ataques de pânico e o início da depressão eu estava num estado psicológico muito mau e isso estava, não só a afectar o meu comportamento no trabalho e na vida em geral, como estava a afectar as pessoas que viviam directamente comigo, por isso depois de uma avaliação, a médica receitou-me um antidepressivo e um ansiolítico.

Lembro-me exactamente de como me senti por dentro

Quando ela falou daquela medicação, uma tristeza profunda e um sentimento de falha para comigo própria era tudo o que me passava pela cabeça enquanto a ouvia explicar todos os sintomas que eu poderia sentir nos primeiros dias.

Se me dissessem, há muitos anos atrás, que aos 26 anos eu estaria a tomar este tipo de medicação eu iria dizer que estavam loucos da cabeça. Afinal eu era muito bem-disposta e sempre com um riso fácil. Portanto estar ali em frente a alguém que me estava a receitar um medicamento do qual eu sempre tive medo, foi para mim o maior dos golpes. Foi sem dúvida nenhuma uma grande vergonha.

Mas a verdade é que na altura eu não estava muito em mim

Tudo era medo. Tudo era sufocante. Eu tinha a constante certeza que ia morrer a qualquer momento. Respirar fazia doer-me o peito. Comecei a ficar muito apática com tudo. Chorava muito e comecei a deixar de comer. Portanto concordei que iria tomar a medicação e fazer psicoterapia mas jurei a mim mesma que não iria ficar dependente daquilo. Jurei de tal forma, que o escrevi numa agenda que entretanto deixei de usar. E que curiosamente voltei a reencontrar há umas semanas juntamente com a minha promessa.

Mas falando da vergonha….

Acredito profundamente que a grande maioria das pessoas que toma este tipo de medicação sinta exactamente isto, esta vergonha de assumir que se precisa de um medicamento sem pensar logo que será olhada de lado pelo mundo. Porque a verdade meus caros é que por mais moderninhos que mostremos ser, este ainda é um assunto tabu especialmente quando alguém diz que já tentou deixar e não consegue.

Há quem pense que é por se ser fraco e que quando se quer muito uma coisa consegue-se. Sim este último facto é verdade mas acreditem no que vos digo – largar um antidepressivo é duro e provoca ressacas complicadas e mesmo que o façam como manda a lei, reduzindo pouco a pouco, esta ressaca é terrível e acredito que quanto mais anos se tome mais complicado seja, portanto desde que passei por todo este passei a respeitar muito mais quem se vê emaranhado nas teias desta medicação.

Tomei um ansiolítico durante 3 meses e um antidepressivo acompanhado de psicoterapia durante um ano.

Com esta toma diária eu sentia-me “normal”. A ansiedade começou a ser controlada. O medo que se apoderou de mim de sair de casa começou a reduzir-se. E aos poucos comecei a voltar a mim. De tal forma que havia alturas em que eu achava que o medicamento já não estava a fazer nada. Mas estava errada.

Passou um ano e a médica decidiu começar a fase do desmame

Esta palavra é feia mas é exactamente isto que todo este processo é. Um desmame lento de uma droga que te mostra exactamente o seu poder quando a tentas largar. Ela recomendou começar a tomar metade durante um mês. Avisou-me de uma série de efeitos que se começassem a surgir com força eu tinha de lhe ligar logo para ajustarmos a medicação. Mas como eu tinha jurado que ia largar isto assim que possível ignorei a parte de lhe ligar. Nessa noite tomei metade e no dia a seguir fui trabalhar. E foi exactamente nesta manhã que eu comecei a perceber o quanto o meu corpo estava agarrado a um químico.

Tremores pelo corpo todo. Sensação de desmaio constante. Vomitava o que comia, e ao longo do dia tive muitos picos de calor e de frio. Eu sabia que estes eram os efeitos de alarme que a médica me tinha dito para ligar caso sentisse, mas eu não o fiz. Continuei a trabalhar até que à tarde expliquei à minha chefe que não me estava a sentir bem e pedi para ir para casa.

Ninguém no meu trabalho sabia, eu tinha vergonha de contar que tomava aquela medicação

E tinha ainda mais vergonha de explicar que estava numa fase de desmame. Por isso não contei a ninguém. E quando desci o elevador comecei a sentir que as minhas pernas estavam a falhar. E que eu não conseguia ir para casa sozinha. Liguei a pedir ajuda. Comecei a chorar imenso e o namorado acabou por me ir buscar. Eu estava efectivamente a sentir-me mal e só conseguia estar deitada para não sentir tudo a andar à volta. Era como se eu estivesse num carrossel durante horas a andar sempre aos círculos. Conseguem perceber essa sensação?

Estive assim durante todo o fim de semana. Sem me levantar, sem comer e com muitos tremores pelo corpo. Ele insistia para ligar à médica e eu pedi-lhe para não o fazer. Estive de ressaca todo o fim de semana.  Até que chegou segunda feira e os sintomas abrandaram. Fui trabalhar e a partir daí comecei a deixar de sentir todo aquele mal estar.

Demorou 3 meses até largar por completo o antidepressivo

Nesse dia, nesse último dia jantei com amigos que sabiam da minha condição. Celebrei muito e podem até achar cliché mas senti-me efectivamente viva e livre. Senti o toque. Senti a pele de galinha. Senti cheiros e senti acima de tudo leveza.

Portanto o que é se se sente quando se toma este tipo de medicação?
Sem dúvida um grande vazio e vergonha.

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11 Comments

  1. Responder

    Flicker

    Março 16, 2017

    Foste uma verdadeira heroina e bem sei que nao foi facil! Nao foi facil, mas tu conseguiste e nunca te deves esquecer disso!
    Alem disto, quem necessita de tomar antidepressivos nao e' maluquinho da cabeca! Alias, muito pelo contrario, por estar tao ciente da vida de correria que temos hoje em dia e de todas as dificuldades que a vida te poe 'a frente, e' que acaba por se entregar a um estado de preocupacao e tristeza constante!
    Com isto quero desejar as melhoras a todas as pessoas que precisam da medicacao e congratular os que ja se viram livres dela 🙂
    No fundo, com ou sem medicacao, procurem ser felizes! A vida e' curta 🙂

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 19, 2017

      e a verdade é que tu foste um dos grandes pilares para ter conseguido superar 🙂 obrigada <3

    • Responder

      Flicker

      Março 19, 2017

      posso ter ajudado mas a força foi e é tua! Não me agradeças, agradece-te a ti própria! Forever <3

  2. Responder

    M.

    Março 16, 2017

    Que caramba… Pois minha querida, vergonha de quê? Quase toda a gente que eu conheço toma ou já tomou. Eu nunca tomei, mas às vezes acho que precisava!
    Beijinhos e força 🙂

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 19, 2017

      sabes eu sou apologista que há melhores opções do que tomar este tipo de medicação. Se sentes que precisas de ajuda não te deixes acomodar antes que as coisas evoluam e não haja mesmo outra opção. Ás vezes basta falar com a pessoa certa ou fazer pequenas mudanças na vida para tudo ficar melhor 🙂 beijinhos e força.

  3. Responder

    Daniela

    Março 16, 2017

    Infelizmente ainda existem muitos tabus relacionados com a depressão, a ansiedade. Talvez se estes tabus não existissem seria mais fácil detectar estas condições e as próprias pessoas não se sentiriam tão envergonhadas em expressar os sentimentos. E se assim fosse, talvez os tratamentos fossem mais fáceis e não fossem necessários tantos medicamentos…

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 19, 2017

      eu acho que vai sempre haver tabus a partir do momento em que é muito complicado explicar o que é uma depressão ou ansiedade. Já escrevi aqui uma vez que estas doenças ao não serem tão palpaveis como um braço partido por exemplo acabam por dar azo a que muita gente ache que é mania. É uma bola de neve gigante este assunto. beijinhos

  4. Responder

    Experiências e Constatações

    Março 16, 2017

    Não há que sentir vergonha.
    Vergonha é sermos atiradas e expostas a um estado constante de stress e de pequenas e grandes coisas que não matam mas vão moendo e que fazem com que precisemos das "drogas".
    Do mais leve – um cházinho de tília ou camomila para acalmar – ao mais agressivo, a dado momento temos de nos deparar com estas coisas.

    Não sei se as outras pessoas têm realmente vergonha de tomar antidepressivos. Conheço tanta gente que sem mais nem porquê me diz muito diretamente que toma antidepressivos… E às vezes parece só um boletim informativo – a conversa nem se proporcionou.

    Não tens de sentir vergonha e fico muito feliz por teres conseguido deixar o antidepressivo!

    Experiências e Constatações

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 19, 2017

      concordo contigo em tudo, mas a verdade é que ainda existem bastantes pessoas que acabam por ter olhar de lado (especialmente a nivel laboral) se souberem que tomas este tipo de medicação ou que estás a ter x sintomas porque a estás a tentar largar tal e qual um viciado. A vergonha acaba por vir dai, eu pelo menos senti muito isso e por isso nunca contei a praticamente ninguém, mas hoje em dia que tudo já passou acho importante falar sobre estes assuntos 🙂

      beijinhos

  5. Responder

    Bárbara Lopes

    Março 16, 2017

    Também já tomei esse tipo de medicação mas larguei-a de uma vez só e sem autorização médica – um erro total, eu sei. Por acaso correu bem, e desde aí, há cerca de cinco/quatro anos atrás, só tomei ansioliticos esporadicamente, ou calmantes para dormir. Acho que é, tal como referes, uma droga – e das grandes. E como tal, exige uma grande força de vontade para conseguir largar.

    Força! O mais importante é ter acompanhamento. Só mesmo os terapeutas sabem a melhor forma de agir.

    Beijinhos | http://anetadaluisa.blogs.sapo.pt/

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 19, 2017

      Sim eu fiz psicoterapia durante todo aquele tempo e ajudou-me imenso e desde que larguei a medicação que nunca mais tive necessidade de tomar absolutamente nada e isso é das coisas que mais me deixa orgulhosa. Nem quero imaginar como seria largar o que estava a tomar de uma vez só, nestas coisas que acabei por preferir fazer com calma e garantir que me via mesmo livre disto do que ter alguma recaída ou necessidade esporádica de tomar alguma coisa. Mas admiro a tua coragem.

      beijinhos

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