Super Humanos #3 – Raquel Salgueira Póvoas, Vice-Presidente Sonha, Faz e Acontece

Não vos consigo explicar o entusiasmo com que estou por poder partilhar finalmente esta entrevista e este projecto MARAVILHOSO com vocês. A Raquel foi-me sugerida para esta rubrica no mês passado e caramba se não foi das melhores sugestões de sempre. É cativante, bem disposta e disponível e para além de ser uma pessoa que fala com verdadeira paixão das coisas que a movem é acima de tudo uma miúda com um coração daqueles mesmo mesmo bons.
O meu objectivo com os Super Humanos é inspirar-vos com histórias de pessoas maravilhosas que não se resignam a só estar cá neste mundo e garanto-vos que a Raquel vai dar-vos verdadeiras borboletas de felicidade na barriga.
Ficaram curiosos? Então venham ler esta entrevista fantástica e conheçam um projecto lindíssimo.

1 – Raquel, antes de mais apresenta-te. Quem és tu?

Positiva, enérgica, impulsiva e solidária. Adoro muitas coisas, às vezes coisas a mais.  Tenho a certeza que estou na profissão certa – no jornalismo e na comunicação -, mas sei que se o dia fosse de 48h, ainda dava para ser assistente social e veterinária.

2 – És vice-presidente na associação Sonha, Faz e Acontece. Como surgiu este projecto na tua vida? 

Sabia que queria fazer voluntariado, mas estava meio perdida na missão a seguir.
Depois de conhecer a Sonha, Faz e Acontece, soube que era por aqui que deveria começar. O Projeto a que me propus em 2014 foi o de ir para a Ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, fazer acontecer projetos de empreendedorismo social.
Eu e o meu grupo participámos na construção do primeiro jornal da ilha, o Jornal do Príncipe; reconstruímos uma biblioteca e um campo de jogos; demos aulas de inglês, comunicação e ecologia; preparámos um Open Day das Profissões.
Depois desse ano, era certo para mim que havia muito a fazer pelos PALOP e que eu me identificava a 100% com este público-alvo e com aquelas que são as suas dificuldades. Quando cheguei a Portugal, juntei-me ao Projeto Portugal desta Associação, que consiste na receção e integração dos estudantes PALOP no nosso País. Hoje coordeno-o e sou muito feliz a participar nas conquistas pessoais de cada estudante africano em Portugal.

3 – Porquê Africa? 

É um continente feito de genuinidade. E quem lá vive, tem uma vontade enorme de fazer acontecer, tal como eu, tal como nós, Sonha, Faz e Acontece. A minha ligação a este continente é muito natural, basta pôr o pé em terra quente e sinto-me mais Raquel. Da curiosidade à alegria dos dias, assemelho-me a eles. Depois, sabendo das dificuldades e tudo o que ainda está por fazer em cada uma das terras do continente, é muito claro para mim que aqui faz sentido.

4 – Fala-me sobre as diferenças do Projecto Portugal e do Projecto Príncipe. 

O Projeto Portugal destina-se aos jovens PALOP que chegam a Portugal para estudar, no ensino superior. Quando chegam, há imensas dificuldades pelo caminho: integração cultural, procura de part-times, adaptação ao nível de ensino português, agilização de questões burocráticas. Desta forma, os voluntários do Projeto Portugal procuram respostas para estas necessidades.
Fazem-se Bootcamps para que estejamos juntos; há aulas de inglês e explicações de matemática todos os sábados, há um departamento – O Faz Acontecer Emprego -, que se preocupa em melhorar as competência profissionais de cada um fazendo a ponte para o contexto profissional português; no Natal reúnem-se materiais escolares, kits alimentares e roupa para distribuir de norte a sul do país; organizam-se peddy papers por Lisboa e até showcookings 🙂
No Projeto Príncipe, durante um ano são desenhados projetos em Portugal para que na altura do verão sejam implementados na ilha do Príncipe. São projetos que visam dar resposta a necessidades concretas daquele local, que nos são transmitidas pelos voluntários locais da ilha.
Os projetos têm como fundamento último ser sustentáveis: quando os voluntários saem da ilha, os locais dão continuidade aos projetos e participam no crescimento da sua ilha. Neste projeto, já foram feitos: concurso de micro-empreendedorismo; clubes de leitura; reconstruções de salas pediátricas, postos de saúde, escolas; jornal do príncipe; aulas de informática; preparação de professores de educação física; agilização de estágios para estudantes com empresas locais, entre outros.

5 – Qual foi o melhor e o pior momento enquanto voluntária?

O melhor foi sair do Príncipe de coração cheio, pelo que fiz e pelas pessoas que conheci. O outro melhor momento, foi conhecer um grupo de estudantes muito motivados e cheios de valor, os estudantes do Projeto Portugal. O pior momento é quando temos de aceitar que há coisas que não podemos mudar, sobretudo a noção de compromisso das pessoas.

6 – Conta-me, depois de se viver a realidade de África durante algum tempo como é que se regressa à rotina do dia-a-dia? O que mudou em ti?

Voltei à rotina muito bem. Vim completamente diferente, e isto não é uma frase feita. Hoje sou muito menos dramática, menos pessimista. Sou desenrascada e não desisto à primeira nem segunda dificuldade. Depois, acho que permiti que a palavra “aceitar” entrasse na minha vida e se deixasse ficar para sempre. Aceitar que tudo acontece quando tem de acontecer, aceitar que nem tudo corre como esperamos e é assim que tem de ser, aceitar que cada pessoa tem o seu tempo e que o meu tempo não é mais importante que o dos outros. No fundo, aceitei que voltar à rotina é normal e que quando se vem sendo um melhor humano, está tudo certo 🙂

7 – O que é que dirias a alguém que diz: “Tantas pessoas cá a precisar e vocês vão ajudar lá fora”. 

Diria que não é justo cobrar justificações a quem se disponibiliza a ajudar o outro. Diria que no que toca a ajudar, basta que haja quem precise. Não há comparações. Eu ajudo de outras formas e sempre que posso, “cá”. Importam-me as pessoas, não o patriotismo. O problema é o haver ainda em muitas cabeças e corações o “cá” e “lá”. Estamos cá uns para os outros, sem distâncias contadas, sem muros e sem preconceitos.

8 – Para quem diz que não tem tempo para ser voluntário, descreve-me um dia teu? 

Vou ao yoga para começar bem o dia. Organizo as coisas em casa antes de sair, dou atenção ao namorado e aos dois gatos. Depois, vou para o trabalho a pé. Quando chego, tomo café com um dos meus melhores amigos e ganho aqui energia para o resto do dia.
Trabalho num Gabinete de Comunicação de uma Faculdade a tempo inteiro, trabalho à distância como Country Manager numa empresa de E-commerce, escrevo artigos como jornalista externa de LifeStyle para o Observador, sou voluntária e coordenadora do Projeto Portugal e sou Vice-Presidente da Sonha, Faz e Acontece, durante o dia, todos os dias.
No fim da rotina diária, pelas 19h ou 21h, três vezes por semana, treino. Quando me sento à secretária, todos os dias, escrevo as tarefas, defino prioridades e atribuo momentos do meu dia para cada uma delas. Gosto demasiado de todos os compromissos que tenho, pelo que consigo organizar-me e ser mais disciplinada.
Não sou a favor de não haver tempo livre, muito pelo contrário. Sou adepta do tempo para nós, da prática de mindfulness e da meditação. Sou, aliás, assim porque os pratico. Mas, quando se quer ajudar, não há coração que resista. É preciso estarmos bem para fazer bem aos outros, esse é o tempo certo para fazer voluntariado.

9 – Achas que somos um povo realmente solidário ou somos mais “solidário comodista”?

Tenho tido boas surpresas, com os voluntários com quem me cruzo. Acho que somos verdadeiramente solidários. Só precisamos de ser disciplinados e aprender a respeitar o outro sempre que se assume um compromisso. A disciplina treina-se, a noção de compromisso ganha-se a partir do momento em que nos sentimos verdadeiramente ligados à causa e ao público-alvo.

10 –  Como podemos ser solidários em tempos de crise? 

Acho que devemos ainda ser mais, nestas alturas. A crise não invalida que se saia de casa para ajudar alguém com dificuldades na disciplina de inglês. Não impede que se juntem os cobertores a mais lá de casa e se ofereça a quem está com frio hoje. Não cancela o evento de solidariedade que reverte a favor da instituição que não tem dinheiro para dar resposta a uma série de necessidades. Não muda a morada da casa onde há crianças a precisar de amor e atenção. Se a crise tiver coisas boas, o sermos mais atentos aos outros é a coisa boa.

11 – Por fim para quem não conhece este projeto, diz-nos porque é que vale mesmo a pena ser voluntário no Sonha, Faz e Acontece.

Porque sentimos, todos os dias, que estamos a criar valor aqui ou num país PALOP. Porque crescemos como pessoas, porque nos tornamos melhores a cada dia que passa. Na Sonha, Faz e Acontece há espaço para propor ideias, para levar a cabo projetos em equipa que de facto mudam a realidade das pessoas a que se destinam.
Na Sonha, Faz e Acontece, há estudantes a melhorar a sua qualidade de vida pela ajuda de um voluntário que se tornou seu melhor amigo. É tão bom ser parte desta família. E ela está sempre a crescer…
Se ficaram curiosos com o trabalho desenvolvido na Sonha Faz e Acontece visita o site e faz like na página de facebook
E se conhecem outros super humanos que merecem ter destaque neste projecto, não deixem de partilhar comigo para o email: vania.duarte@lollytasteblog.com

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6 Comments

  1. Responder

    Dianinha Gomes

    Fevereiro 27, 2017

    sinceramente até me arrepiei a ler este post e cheguei ao fim com vontade de dar um abraço gigante à raquel e agradecer-lhe por querer fazer diferença no mundo. obrigada também a ti por trazeres estas pessoas maravilhosas a público.

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 1, 2017

      querida Diana muito obrigada. A raquel é efectivamente uma pessoa muito especial. beijinhos 🙂

  2. Responder

    ML

    Fevereiro 27, 2017

    Espetacular!! Simplesmente espetacular!

    • Responder

      Raquel Salgueira Póvoas

      Fevereiro 28, 2017

      Obrigada, do fundo do coração. Um beijinho enorme !

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Março 1, 2017

      Obrigada 🙂

  3. Responder

    Raquel Salgueira Póvoas

    Fevereiro 28, 2017

    Um beijinho do tamanho do mundo, Diana 🙂 <3

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