#ésinaldeviolência

campanha Apav #ésinaldeviolencia no Instagram
Vou contar-vos uma história, não é dramática, não aconteceram tragédias, mas quem sabe o que poderia ter acontecido se não tivesse havido um fim com final mais ou menos feliz. 
Tinha eu 19 anos e muito pouca experiência com rapazes quando conheci um por quem me apaixonei, ele tinha 24. Eu era muito insegura, nessa altura ainda tinha excesso de peso e sempre me achei desinteressante, por isso ter um rapaz que me pudesse achar bonita deixou-me completamente sem armas e em pouco tempo começámos a namorar. Ele era simpático, amável, preocupava-se muito comigo e ao final de um mês saiu-lhe um “Amo-te”, juntamente com duas alianças de ouro e um “quero que sejas minha para sempre”.
Eu não entendia muito de relações, mas lembro-me de achar aquele para sempre meio estranho, especialmente porque eu tinha 19 anos e “para sempre” soava-me a muito tempo, para além disso eu que nunca gostei de usar anéis (ainda hoje não gosto), fiquei meio sem jeito quando em tão pouco tempo ele me oferece uma coisa para o qual eu não estava preparada para usar nem gostava, mas com medo de o perder e depois de me dizer “quero mostrar ao mundo que és só minha”, aceitei usar um anel com que nunca me identifiquei.
Os meses passaram, no geral tínhamos uma boa relação apesar de termos muitos desejos diferentes, eu lembro-me de lhe dizer que adorava andar de avião e conhecer outros países (só viajei de avião pela primeira vez aos 24) e ele muitas vezes falava-me em casar, ter filhos e construir uma família grande como a dele.
Mais meses se passaram até que um dia enquanto jantávamos, eu ausentei-me para ir à casa de banho e quando cheguei reparei que estava a mexer no meu telemóvel. Perguntei o porquê de o estar a fazer e ele amavelmente disse que estava só a ver as horas, e eu que sabia que era mentira, decidi colocar de lado aquele episódio, novamente com medo de o perder.
Até que chegámos a Agosto perto da altura dos meus anos, e eu fui comprar roupa nova para o meu jantar, comprei um top cai cai muito bonito e delicado e uma saia pelo joelho com umas ligeiras transparências. Lembro-me que ao vestir aquela roupa senti-me bonita e quis mostrar-lhe, e quando ele me viu a expressão mudou completamente e disse-me pela primeira vez ” Não vais sair à rua assim vestida, pareces uma …. (vocês sabem o que). Senti-me triste, muito muito triste, como é que alguém que gostava de mim era capaz de me dizer aquilo, apesar disso fiz-lhe frente e disse-lhe que aquela era a roupa que tinha escolhido e ele teria de aceitar, porque nem a roupa nem eu éramos vulgares.
E foi depois desse episódio que tudo mudou. Ele passou a criticar toda a roupa que eu usava, na praia falava dos meus bikinis e o quanto eram reduzidos. 
Reparem eu era gordinha, tinha pouca auto-estima portanto como devem imaginar bikinis reduzidos era coisa que eu não usava, os meus bikinis eram normais mas ele não achava isso, e certo dia ofereceu-me um que nem a minha avó seria capaz de usar e eu para tentar encontrar alguma paz aceitei usar uma vez. 

“Senti-me triste, muito muito triste, como é que alguém que gostava de mim era capaz de me dizer aquilo…”

Com o avançar do tempo as coisas pioraram, a pessoa amável que eu conheci deu lugar a uma pessoa muito desconfiada, que me mexia no telemóvel e que ao ver que eu não tinha mensagens me dizia na cara que eu andava a enganá-lo e que apagava as mensagens para ele não ver, a pessoa que me deixava feliz, deu lugar a uma pessoa que criticava a roupa que eu vestia, que criticava eu querer colocar rímel, que quis a todo o custo saber a minha password de email e que tinha ciúmes doentios de tudo. Lembro-me de lhe dizer que ele me assustava, e ai ele mudava e tornava-se novamente o rapaz querido que eu conheci. 
Namorámos um ano e alguns meses até que eu ganhei coragem e terminei a nossa relação que já não o era há um bom tempo porque eu sentia-me muito insegura, e foi exactamente nesse momento que vi o verdadeiro ele. Nos meses a seguir perseguiu-me, fazia-me telefonemas completamente obscenos onde conseguia chamar-me tudo numa só frase, esperava-me à porta da minha casa, seguia-me para supermercados, enviava-me presentes e logo a seguir dizia-me que eu era a maior….
Passaram alguns meses, eu falei com a minha mãe sobre isto e ela que tinha conhecimentos na polícia acabou por resolver esta situação e ele afastou-se.

E porque é que partilho isto com vocês? 

Porque hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e a violência psicológica é tão grave como a física. Não, ele nunca me bateu mas eu não sei se não seria capaz de o fazer se eu tivesse continuado ao seu lado. Não ele nunca me ameaçou que me matava, mas como posso eu saber se algum dia ele não o iria dizer, se me ofendia com todos os nomes que conseguia e foi capaz de me perseguir durante meses?
Falamos de violência há muito tempo e precisamos de continuar a falar, porque a violência nos namoros é das coisas mais crescentes nos dias de hoje e não pode ser encarada como normal. Não ele não tem o direito de te dizer como te podes vestir, ele não tem o direito de te mexer no telemóvel ou exigir-te que lhe digas porque é que não foste para casa quando saíste do trabalho, não ele não tem o direito de nem que seja uma vez te chamar “vaca, puta, gorda ou cabra”.
Não, ele pode nunca te ter batido, mas isto continua a ser crime, isto magoa o teu mais íntimo, isto anula-te como mulher e como ser humano. Ele pode nunca te ter batido, mas as feridas que te deixa no interior são tão duras de cicatrizar como as exteriores. 
Eu fui capaz de parar com uma situação de violência psicológica a tempo e hoje sou feliz, realizada, continuo sem usar anéis apesar de me sentir há muitos anos casada, uso calções, vestidos, bikinis e tenho amigos rapazes sem ter medo do que ele possa a vir a pensar. Por isso se me lês e te identificas com alguma destas coisas, não desistas de ti, não aceites que a culpa é tua e que mereces isto porque não é verdade, não tenhas medo e pede ajuda, acredita que mesmo que o tenhas de fazer sozinha vale a pena viver, por isso:

Se é sinal de violência, contacta gratuitamente a Linha de Apoio à Vitima: 116 006 (dias úteis, das 9h às 19h)

Novembro 23, 2016

RELATED POSTS

4 Comments

  1. Responder

    Joana Sousa

    Novembro 25, 2016

    Que história, Vânia…e parabéns pela força que tiveste para sair disso. Ninguém, nunca, deveria passar por algo semelhante – quantas e quantas histórias começam assim e acabam tão mal…obrigada por dares o teu testemunho <3

    Jiji

  2. Responder

    Flicker

    Novembro 25, 2016

    Violência nunca, física ou psicológica!

  3. Responder

    Ana Sofia Santos

    Novembro 25, 2016

    e mais tarde descobriste um mundo todo novo… no amor 🙂

  4. Responder

    Daniela

    Novembro 26, 2016

    Felizmente nunca passei por nenhuma situação dessas mas ainda bem que falaste neste tema e deste o teu testemunho porque pode ser muito importante para alguém e até mudar-lhe a vida.Ah, e claro, ainda bem que conseguiste dar a volta à situação!

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

LEAVE A COMMENT