Ataque de Pânico – Os seguintes

Depois de ter tido o meu primeiro ataque de pânico em Junho de 2011 os dois meses seguintes foram de verdadeiro terror. Os ataques começaram a ser frequentes, as minhas idas ao hospital também e eu vivia num constante medo de morrer do coração. 

Comecei a ler muita coisa na net, erro crasso que me fazia ficar ainda mais paranóica e cada vez tinha mais a certeza que sofria de um problema grave de coração. A grande maioria dos ataques começava em casa, quando eu estava tranquila a ver televisão ou a dormir e rapidamente me levavam a descer numa espiral de medo e pânico que só fazia piorar as coisas.
O braço esquerdo dormente, uma dor terrível no peito, o corpo gelado, a mão quase sem mexer, começaram a limitar a forma como eu levava a minha vida e aos 26 anos, comecei a ter medo de viver, daqui até começar a ter pânico de sair de casa foi um tirinho. 
Não vos consigo precisar como aconteceu, mas lembro-me que certo dia acordei para ir trabalhar e senti medo de sair de casa, um medo tão angustiante que me deitei na cama a chorar, não estava a ter um ataque de pânico como os que tinha, até porque até esta altura eu não sabia que tinha ataques de pânico, o corpo não estava descontrolado eu é que pura e simplesmente senti um medo terrível de sair de casa. Liguei para o namorado que me acalmou e lá consegui sair de casa para ir trabalhar, mas estes episódios começaram a ser muito frequentes. Ora estava com a minha mãe num centro comercial e começava a chorar porque me sentia sem ar e tinha medo de sufocar, ora estava no trabalho e acontecia a mesma coisa, todos estes episódios levaram a que eu começasse a perder a minha essência, e sobretudo a perder-me enquanto pessoa.
Passar por tudo isto quando não se sabe o que temos, sentirmos que estamos a enlouquecer devagar e a vergonha que nos julguem e nos achem doidos acaba por fazer com que nos escondamos numa redoma e só as pessoas que convivem connosco é que acabam por perceber o que se passa. O problema disto é que quem nos ama acaba por ser afectado também, acaba por ser afectado por um problema que até à data não tinha nome e sente-se impotente sem saber o que fazer para nos ajudar. 
Aconteceram vários episódios, até chegarmos a Setembro, altura em que íamos de férias para Odeceixe e em que eu tive aquele que considero o pior ataque de sempre. Acordei nessa manhã e sentia uma ligeira impressão no peito, não disse nada porque era o nosso primeiro dia de férias e eu não o queria estragar. Seguimos então viagem até Sul, eu sentia-me cada vez pior, a dor no peito aumentou, o braço esquerdo estava cada vez mais dormente, custava-me muito respirar, as mãos suavam muito até que de repente a minha cara no lado esquerdo paralisou e eu só consegui dizer estas palavras que até hoje nunca mais nos saíram da cabeça:
 – Pára o carro, chama uma ambulância que eu vou morrer.
Lembro-me exactamente de sentir que a minha vida ia terminar ali, lembrei-me de todas as pessoas de quem eu amava e chorava compulsivamente enquanto ele se manteve sereno por fora (veio a dizer-me mais tarde que por dentro nunca sentiu tanto medo) e começou a ligar para o 112. Nós parámos no meio da auto-estrada sem qualquer ponto de referência, não imaginam o quanto é dificil uma ambulância vir ter com vocês neste local, e como tudo indicava que eu estava a ter um ataque cardíaco saíram 2 ambulâncias à nossa procura. Milagrosamente um senhor parou e disse-nos que o melhor seria irmos para a zona das portagens pois a ambulância teria de passar pela rotunda ali perto e assim foi, passados uns minutos ela apareceu, deram-me oxigénio, mediram-me a tensão que estava altíssima e foram de urgência para o hospital de Setúbal.
Cheguei ao hospital dei entrada muito rápido, fizeram-me exames e mais uma vez como de todas as outras não acusou nada. Depois deste episódio decidi que precisava de ir ao médico, e fui até um excelente cardiologista, entrei na sala e disse-lhe que estava ali porque sabia que ia morrer do coração a qualquer momento, ele muito calmo fez-me mil perguntas sobre todo o meu historial e no final disse:
– Vânia vais fazer todos estes exames para descargo de consciência mas eu tenho 97% de certeza que o teu problema não é fisico mas sim psicológico. 
E foi aqui que pela primeira vez um médico me disse a verdade. Fiz os exames, provas de esforço, ecografias, teste do sono entre outros e o resultado foi um coração super forte sem qualquer vestígio de problemas, ao ver o resultado o médico disse-me que o meu problema não estava tratado e que eu precisava de pedir ajuda psicológica rapidamente. Explicou-me ele que o nosso cérebro é muito inteligente, e que tinha encontrado o meu “calcanhar de Aquiles” que na altura era achar que ia morrer do coração, ao ver que tudo estava bem o cérebro ia arranjar forma de manipular as coisas e criar outros sintomas, portanto eu precisava efectivamente de me tratar.
Sai da consulta feliz porque percebi que não ia morrer do coração e não liguei muito ao que ele me disse sobre pedir ajuda, pois a verdade é que em momento algum eu admiti que poderia ter algum problema psicológico que pudesse estar a criar isto e inclusive sentia vergonha e preconceito de pronunciar a palavra depressão e ataque de pânico.
Até que passou exactamente uma semana, estávamos em casa eu já a dormir no sofá quando do nada a minha temperatura baixa muito e todo o meu corpo começa a tremer sem parar. Não havia dor no lado esquerdo, não havia braço dormente nem falta de ar, não havia nada dos sintomas que eu já conhecia até então pois tal como o médico me disse o meu cérebro arranjou forma de dar a volta à questão e presenteou-me com novos sintomas de um ataque de pânico. 
Chorei muito agarrada a ele nessa noite e juntos decidimos que efectivamente eu precisava de ir ao médico, marcámos consulta de urgência para a minha médica de família e quando lá entrei estava um caco humano. Chorava compulsivamente, não percebia o porquê de isto me estar a acontecer se eu só tinha 26 anos, tinha uma vida maravilhosa e um trabalho que gostava muito. Felizmente a minha médica que já me conhece há muitos anos, foi paciente, ouviu tudo com atenção e no fim explicou-me detalhadamente o que se passava comigo, mas disse-me logo que se eu queria tratar-me precisava de admitir a mim mesma aquilo que tanto eu tinha vergonha de pronunciar
E foi assim que aos 26 anos eu assumi finalmente que precisava de ajuda psicológica para este problema. 
Agosto 30, 2016
Setembro 1, 2016

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3 Comments

  1. Responder

    Daniela

    Agosto 31, 2016

    O preconceito hoje em dia ainda é muito grande e é pena que um problema tão grave como a depressão seja tão desvalorizado na nossa sociedade. Espero que tenhas conseguido ultrapassar essa fase e tenho a certeza que este texto foi muito importante para imensas pessoas.

    Beijinhos,
    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

    • Responder

      lollytasteblogvania

      Setembro 4, 2016

      olá Daniela, sim é triste ver como estes assuntos ainda são tratados hoje em dia, há muito preconceito sobre uma doença que magoa muito quem a tem e quem está à volta. Felizmente consegui superar. 🙂

  2. Responder

    Flicker

    Setembro 1, 2016

    Sempre cá para ti, sempre! Poderás contar comigo até ao fim da vida e depois também <3

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