As profecias de Mestre Mamadoo

Este fim de semana foi todo ele muito calmo e descontraído, não estivesse eu a curar o raio da gripe, que apanhei graças ao miserável sábado da semana anterior.

Entre filmes, e uma ida aos centros comerciais para adquirir as prendas de Natal, tudo corria calmamente, e no sábado enquanto aguardava a chegada do meu homem, andei passei pela rede social do momento a ler os “Boa Tarde” e “O que estão a fazer” que não obtém qualquer resposta, e de deprimentes passam oficialmente a casos de exclusão social grave. Encontrei também um “Vou descongelar a lasanha” e um “Vou lavar os dentes”, mas para estes não tenho qualquer comentário.

A minha breve visita estava quase a terminar, quando vejo fotos de um bebé no perfil de uma amiga, um bebé muito mas muito pequeno, com ar de quem tinha dito olá ao mundo há dois minutos , fui ver melhor e voilá era o recente filho de uma amiga.

No momento em que vi as fotos da criança, com aquele ar de recém-nascido que não é giro, mas todos dizem que sim, andei 8 anos para trás, e fui parar aquele bonito Setembro de 2002 em que comecei o meu curso de Design e conheci a Marta…

Como segui pelo ensino profissional, a minha turma tinha pessoas desde os 15 anos aos 23, betinhos a góticos, graffiters a dealers, uma data de rapazes e apenas 4 miúdas, eu era uma delas a Marta também. Lembro-me que um dos meus objectivos com 17 anos, em ir para o curso de Design Gráfico era aprender a mexer em computadores. Qual criar coisas, aprender Teoria do Design ou como se imprimia com fotolitos, o que eu realmente queria era aprender a criar pastas no pc e ir à net. Porque é que não fui para um curso de iniciantes de informática? Porque não.

Porque é que com 17 anos, não sabia mexer num pc? Porque nunca tinha tido um até à altura, a mãezinha não podia dar-mo e para a escola sempre apresentei os meus trabalhos à mão e sempre com boa nota.

Éramos todos diferentes, mandaram-nos entrar numa sala, e sentar nas cadeiras, eu com medo dos graffiters e do gótico fiquei ao pé da rapariga loira, com ar agressivo, mas rapariga. Entrou então, o Psicólogo da escola, um senhor alto, bem constituído e de etnia Africana, não me lembro do nome, por isso chamemos-lhe Mestre Mamadoo, afinal de contas ele era fisicamente igual aos Mestres curandeiros da sorte e do azar, da doença e do desgosto, da impotência e da demência que distribuem panfletos na estação de comboios.·


A única coisa que me lembro dessa bela palestra, foi ele distribuir umas folhas com algumas questões que teríamos de colocar ao colega do lado e eu com ar inocente e simpático sorri para a Marta, mas ela não retribuiu. Lá a custo fomos trocando impressões, eu tinha 17 ela 21, eu era demasiado parva e ela demasiado revoltada com a vida até que chegámos à pergunta fulcral “Como te vês aos 25 anos?”.

Lembro-me que respondi:

-Vejo-me com o curso acabado, casada e com um filho, feliz e com uma bela família.

A Marta olhou para mim, com um ar de desdém, deve ter pensado que eu era realmente tótó, e disse confiante:

– Pois eu vejo-me, solteira, bem sucedida no ramo da publicidade, completamente independente, sem filhos nem marido. Quero ser INDEPENDENTE.

Sugestão
Amigos e Amigas da Blogosfera Ajudinha

Disse aquilo com tanta intensidade, que deve ter sido sentido nos quatro cantos do mundo. Aliás não é de estranhar que poucas semanas depois o caso casa pia tenha vindo a publico, aquelas pobres almas, quiseram também a independência de um segredo que os atormentava, e assim se deu a revolução no sistema judicial português, ou então foi só coincidência.

Na altura o Mestre Mamadoo comentou a revolta da Marta e apenas disse:

– Olha que a vida dá muitas voltas, não podes achar que tens todas as certezas do mundo.
Não me lembro o que a Marta sussurrou mas deve ter sido qualquer coisa como “Sabes lá o que dizes preto do car###”.

Os dias, as semanas, os meses foram passando, eu e a Marta fomo-nos conhecendo e ficámos realmente amigas. Andávamos sempre juntas, faltávamos às aulas juntas, saiamos juntas, íamos às compras, almoçar e passear juntas, comecei a fumar com ela (que já fumava e bebia como uma grande maluca), e até arranjámos namorados ao mesmo tempo e eles os dois também eram amigos (que fofo não).

Ela namorava com o João, um rapaz simpático mas que parecia ter levado com um camião na cara. Peço desculpa mas não há forma mais simpática de dizer isto, o homem era realmente mas realmente feio, tinha cabelo à tigela, e madeixas loiras.

Eu namorava com o Nélson, o amigo do João, giro e simpático, de 24 anos (note-se que eu tinha 17), afável, tímido e….perneta. Sim…o moço quando era pequeno foi brincar para uma zona de cabos com electricidade e voilá, ficou literalmente assado, e sem uma perna. No entanto, apesar do corpo estar feito numa entremeada, a cara estava ali, bonita e resplandecente a sorrir para mim.

Não me lembro quanto tempo namorámos, mas não foram mais de 4 meses, e não eram raras as vezes em que a Marta me vinha contar coisas que o João lhe contava e que por sua vez sabia porque o perneta se desbroncava de tudo o que acontecia entre nós…literalmente TUDO!

A minha mãe não gostava do perneta, não por ter menos uma perna mas porque achava que ele só andava comigo para me sacar o “bem mais precioso de uma menina e dar-me um pontapé no cú a seguir” (palavras da mãe), eu dizia que ela não sabia nada do que estava a dizer, que as coisas não eram assim. Enfim, a mãe tinha razão ele sacou o Santo Graal. Perneta sim, mas tótó não.

Para mim estava tudo bem, eu gostava dele, fazia tudo para estar com ele, adorava-o…sim eu…eu fazia e sentia isso tudo, ele não. Estava a borrifar-se para mim, e por isso foi de férias uma semana para a Alemanha, e não disse mais nada. Ao fim de uma semana ligou a pedir desculpa, por não ter dito nada mais cedo, mas não haviam telefones lá. Eu acreditei, sorri e disse que tinha saudades. Ele também disse e desligou.

Sugestão
Best Sunday Dress

Sinceramente neste momento gostava de ter sofrido um brutal espancamento, daqueles que nos deixam em coma, porque a dormir já eu andava, então o homem diz-me que não tem telefones na Alemanha e eu acredito? NA ALEMANHA? Um dos países mais desenvolvidos da Europa??

Enfim uma coronhada na testa tinha sido pouco, mas a história deprimente continua…

O homem regressa a Lisboa, mas só me diz dois dias depois, ao que consta estava confuso , e com quem foi desabafar….com quem adivinhem lá?

Não…não foi com o acidente de aviação humano…vá mais um bocadinho…sim…sim é isso mesmo A MARTA:-)

óhhhhhh que bonita historia se está a desenrolar aqui não é, mas eu continuei de coração aberto à espera do bonito espancamento, e do perneta, que acabou tudo comigo:

“Não és tu, sou eu, eu é que não te mereço”

“Mereces sim, eu gosto de ti”

“Pois mas mereces mais”

“Não, eu quero-te a ti, vamos tentar mais uma vez”

“Não dá Vânia”

“Por favor”

ok, amigos eu supliquei sim?? Isto é feio, suplicar é feio, onde estava o raio do gangue da amadora, para me assaltar e esmurrar quando é realmente necessário. Aparecem em alturas tão pouco convenientes e ali, que precisava brutalmente de levar um aviamento ficaram a assar chouriças na barraca (outra historia que um dia conto).

Enfim o moço foi embora, eu chorei durante dias, chorei no ombro da Marta, ela apoiou-me e contou-me que foi o melhor, porque ele me tinha traído com uma prima na Alemanha. Ok, o perneta enfeitou-me a testa, fiquei chateada, e perguntei como ela sabia daquilo.

A Marta olha para mim, com ar culpado, de quem tinha passado a noite entre a rambóia dos lençóis e brincadeiras ao pé coxinho, e com voz trémula diz: “Vânia eu e o Nelson estamos juntos, desculpa, não foi premeditado, aconteceu, estávamos carentes e descobrimos o amor”

Lembro-me que fiquei muito triste, andei uns dias sem lhe falar, as outras duas miúdas na minha turma a dizerem-me que ela era uma grande vaca e coiso, eu também dizia e pensava as mesmas coisas, principalmente quando ele ia ter com ela à escola para almoçarem juntos.

Enfim…custou, mas para quem está a ler pensa: Opá foi duro, mas aprendeu, ás vezes é preciso bater com a cabeça na parede para aprender. Pois meus caros, desenganem-se, eu não aprendo assim, eu sou tipo padre que se chicoteia por comer meninos da catequese, mas no dia a seguir chama um deles para ir à sacristia confessar-se…Eu meus caros leitores, não só perdoei a Marta, como PASSEI A SAIR COM OS DOIS.

Sugestão
Palermices de Infância parte 4

Sim….o gangue devia ter entrado neste momento e não era espancar-me, era simplesmente dar-me um tiro na testa, mas mais uma vez o gangue perigoso ficou a assar chouriças na barraca e eu andava tipo lapa para trás e para a frente com o bonito casal.

Enfim, aquilo durou uns tempos, até que o mestre Mamadoo, me chamou ao gabinete, porque achava que eu andava muito abatida e com notas baixas, e desde o inicio sempre achou que eu tinha muito mais potencial do que aprender a criar pastas no pc (note-se que nesta altura já bombava em mac)

A coisa mudou, eu afastei-me daquele filme de serie B, passei a estar mais atenta na escola, as notas subiram estupidamente e com 21 anos terminei o curso como uma das melhores alunas da turma. A Marta continuava com notas miseráveis, constantemente a faltar, lá me ia contando que já vivia com o perneta na casa da mãe dele e pronto. Tudo corria bem quando nos últimos dias de aulas eu com 21 e ela com 24, conta que está grávida do primeiro filho de ambos, e estão muito felizes porque ele achava que nunca conseguiria ser papá por causa da cena da electricidade.

Aquilo para mim foi estranho, ele ganhava miseravelmente e já se tinha endividado com um brutal carro, ela não trabalhava, e todo o dinheiro que conseguia gastava-o no segundo a seguir, no entanto desejei felicidades, despedi-me de todos e segui com um curso na mão e o desemprego na outra.

Estava a despedir-me de professores e colegas e o mestre Mamadoo aparece dá-me os parabéns, e diz-me: “A vida dá muitas voltas, parabéns”.

Na altura agradeci, dei um beijinho e fui embora.

Nunca mais vi a Marta, sei dela porque vou falando pelas bonitas tecnologias que descobri com 17 anos. E a Marta foi mãe de uma miúda aos 25 anos, casou aos 25 anos, comprou uma casa com o perneta, endividou-se até ao tutano, está desempregada, vive com o ordenado mínimo do marido, de algum apoio do estado e dos créditos cofidis, cetelem e afins.

Nunca trabalhou na área da publicidade como tanto defendeu naquele Setembro de 2002 e também não alcançou a independência que tanto almejou.

Foi mãe novamente há pouco tempo, agora com 29 anos. Os filhos aumentaram, mas a vida não mudou.

Quanto a mim…tenho 25, não tenho filhos nem estou casada, não sou rica nem conduzo um Mercedes. Trabalhei 3 anos numa área que não gostava, mas nunca desisti do meu sonho, continuei a actualizar-me e despedi-me este ano para abraçar finalmente aquilo que amo o Design; estou numa agência.

Tenho um dois pernas maravilhoso a dividir a vida comigo, já viajei para vários sítios no exterior e no interior, já fui a peças de teatro maravilhosas, já vi exposições lindíssimas, e vou a Berlim na passagem de ano.

Resumo da história: Há alturas em que ser assaltado por um gangue da Amadora, deveria ser obrigatório!!

Dezembro 15, 2010

RELATED POSTS

4 Comments

  1. Responder

    Le Blonde

    Dezembro 13, 2010

    Bem… tou sem palavras! Mas posso dizer que gostei desta história que contaste e fico feliz por teres sido tu a vingar no final de contas! :)))

  2. Responder

    lollytasteblogvania

    Dezembro 14, 2010

    obrigada:-) também fico feliz por as coisas me terem corrido bem:-)

  3. Responder

    BUBBLES

    Dezembro 17, 2010

    Estou a aplaudir-te de pé! Grande história. Que tenhas muito sucesso 🙂

  4. Responder

    lollytasteblogvania

    Dezembro 18, 2010

    Obrigada Bubbles:-) beijinhos***

LEAVE A COMMENT

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.